artesanato em movimento

Um dos motivos para eu detestar os episódios I, II e III de Star Wars é o excesso de computação gráfica. O George Lucas entrou na Industrial Light & Magic e fez a festa. Tenho tido cada vez menos paciência para filmes de ação e blockbusters. Mas parece que esse meu descontentamento tem um motivo, que é explicado no vídeo abaixo. 

Resumindo: O nosso cérebro precisa de uma figura real ou humana para acreditar. Até 2004, a computação gráfica era usada para inserir um elemento numa imagem real já filmada. Depois disso, os softwares avançaram tanto que passaram a criar um background e mesclar tudo, tornando a imagem linda e impecável. Só que o nosso cérebro não consegue se deixar enganar e a gente se entedia com as longas sequências geradas em computadores e que custaram uma fortuna!

Lembro de Capitão Sky e o Mundo de Amanhã, o primeiro filme a ser todo feito em chroma key – ô filme pra dar sono. Se a gente pega blockusters recentes, a conclusão é que os de maior popularidade são os que apostaram em efeitos práticos e apostaram na edição – vide Mad Max: Estrada da Fúria, filmado no desertos com carros de verdade e dublês presos naquelas hastes, e Guardiões da Galáxia, que construiu sets e usou muita caracterização e figurantes. Obviamente, o roteiro fala mais alto.

Ainda bem que o novo Star Wars está sendo dirigido pelo J. J. Ambrams, que entende a importância de contar uma história e adora construção de sets, maquiagens etc. Falando nisso, já viu o novo vídeo?

Passando do cinema para a televisão, a segunda temporada de Penny Dreadful terminou domingo passado. Mais do que nunca, texto impecável e elenco afiado. Que prazer ver uma série assim (não entendo por que os americanos acham a série chata e monótona – eu poderia ver um episódio inteiro de diálogo da Vanessa com a Evelyn). A gente realmente se sente prestigiado quando a produção tem tanto capricho! Cada cenário é absolutamente detalhado, fora o figurino, o cabelo, maquiagem… É uma série artesanal, e parte dos bastidores – como a casa da Evelyn e o baile com chuva de sangue do Dorian Gray – está disponível no blog de produção.

Não é uma questão de ser contra o uso de computação gráfica. Muito pelo contrário, mas do uso inteligente do CGI.

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coisa boa vem por aí

narcosPor causa de Tropa de Elite e sua continuação, o nome de José Padilha (e de Wagner Moura) ganharam projeção internacional. Depois do segundo Tropa, Padilha foi escolhido para dirigir o reboot de Robocop. O filme não foi uma unanimidade de crítica, mas Padilha brigou muito para que a montagem final tivesse o seu gosto. De Robocop, ele pulou para uma série na Netflix, algo bem maior e mais ambicioso. Narcos já teve sua temporada inteira gravada na Colômbia – e dizem que a segunda já está mais que engatada -, e tem Wagner Moura como o mega traficante Pablo Escobar. A série vai focar na aliança feita entre os Estados Unidos e o governo colombiano para desestruturar o Cartel de Medelín. O querido Pedro Pascal também está na série, que estreia mundialmente no dia 28 de agosto. narcos 2

E quem finalmente volta depois de muitos boatos é Arquivo X. Aparentemente, estão todos muito amigos desta vez. A última aparição de Mulder e Scully foi no filme de 2008 – Eu Quero Acreditar. Muita coisa se passou e o criador Chris Carter já disse que não se trata de um reboot, mas uma continuação da série, com acontecimentos nos dias atuais. No primeiro episódio, Scully e Mulder investigam um suposto caso de abdução.

Depois de ressuscitar 24, a Fox traz Arquivo X novamente para uma temporada de seis episódios. Ainda não há data de estreia. ew arquivo x ew arquivo x 2arquivo xarquivo x 3

A Gillian Anderson continua linda! Mas eu a prefiro mais ruiva.

jurassic park: island of adventure

jurassic worldAntes de mais nada, deixa eu falar sobre meu amor por O Parque dos Dinossauros. Eu vejo filmes desde os meus 3 anos e sempre amei. Quando os dinossauros do Spielberg estrearam no longínquo ano de 1993, eu enchi o saco da minha mãe para ela me levar ao cinema. Não, ela não me levou, mas passou a tarefa pro meu primo. Quando fomos, numa noite de quarta-feira (vocês não sabem como era raro sair fora do fim de semana), no finado cinema da Galeria Condor, o filme já estava em cartaz há um mês e todos os meus amigos já o tinham visto. Minha alegria foi tanta que a pipoca acabou antes dos trailers começarem. Quando o filme acabou, eu já tinha morrido e ressuscitado umas cinco vezes só nas sequências do carro e da cozinha. Ali eu descobri que eu realmente amava o cinema, essa coisa de contar uma história através de imagens em movimento. Passei um mês falando de dinossauros (do filme, na verdade) e meu desejo de ser astronauta migrou para a paleontologia.

Dando um pulo de 22 anos, fui todo feliz ver Jurassic World, a terceira continuação. Fui todo feliz, mas sem expectativas, já que O Mundo Perdido e o terceiro filme não foram lá uma Brastemp. E, de fato, Jurassic World é um filme irregular, alterna momentos empolgantes com outros quase blasés. Porém, o roteiro dos bons Rick Jaffa, Amanda Silver (ambos do reboot de O Planeta dos Macacos), mais Derek Connolly e do diretor Colin Trevorrow dá uma piscadinha com um olho, de forma bem discreta, brincando com os clichês do gênero. Chris Pratt é o cara rude que vive num “bangalô”, Bryce Dallas Howard corre pra lá e pra cá de salto num estranho conjuntinho branco, o adolescente vivido por Nick Robinson vive no celular e seu irmão, Gray, sabe tudo de dinossauros. São praticamente os mesmos arquétipos do primeiro filme (tirando a Claire), e não há nada de errado nisso. Pra que complicar algo que não precisa?

De fato, não adianta fazer uma mega análise do filme. É um filme para divertir, não é um documentário. Só esperava que o diretor Colin Trevorrow tivesse construído melhor algumas sequências, como a dos velociraptores correndo atrás do carro – quanta tensão a mais poderia ter saído dali – e se divertido mais com os pterodáctilos tocando o terror no povo. Há trocentas referências ao primeiro filme e Jurassic World tem suas metalinguagens – a necessidade de fazer um dinossauro maior e mais feroz, por exemplo, foi a mesma necessidade que fez o terceiro filme adotar o espinossauro como estrela (sabemos que o rex nunca perde a majestade), além de dar uma leve alfinetada na forma como os blockbusters são produzidos atualmente. Ah, e claro, ao Tubarão do Spielberg.

E sim, eu adoraria ir ao Jurassic World. Não seria tão diferente de ir num parque de Orlando. Quer dizer, seria mais emocionante.

no deserto da loucura

mad max fury roadMad Max: Estrada da Fúria, ou Fury Road, como preferir é cinema puro. São imagens espetaculares em movimento. É a luz, a câmera e a ação. E que ação! Os olhos ficam sem piscar por quase duas horas e você não consegue acreditar que, em tempos de computação gráfica avançada, o louco do George Miller filmou tudo na Namíbia (aí você entende o que o Tom Hardy sofreu com aquela mordaça), e que todas as explosões, pessoas voando pra lá e pra cá… tudo foi realmente feito. Aí você fica com medo de que o caos e a loucura sem freios vai desandar, mas não, Miller sabe exatamente o que está fazendo. Ao contrário dos outros filmes de ação, aqui, cada ato tem uma consequência e um significado.

A ação de passa depois do terceiro filme – Além da Cúpula do Trovão (ou We Don’t Need Another Hero), e Max (Tom Hardy) anda pelo deserto, atormentado por seus fantasmas. Ele é caçado pelos War Boys de Immortan Joe (Hugh Keays-Byrne) e seu destino cruza com o da Imperatriz Furiosa (Charlize Theron) e de Nox (Nicholas Hoult, irreconhecível). Atenção para cada detalhe desta primeira parte, pois nada é explicadinho num diálogo de exposição, Miller usa a imagem e é seu trabalho entender como aquela sociedade funciona. Tudo desencadeia na fuga de Furiosa e das outras reprodutoras, e Max se vê no meio (literalmente) dessa insanidade.

Não é necessário contar mais, mas Estrada da Fúria é um grande road movie em que tudo é um conflito, os personagens se entendem por olhares e também mudam, embasbacados com o que vêem. Querendo ou não, Miller fez um filme que dialoga com os problemas do mundo de hoje e dá um ultimato: mulheres no poder!

as cabeças do david fincher

garota exemplarFilme visto com bastante atraso, diga-se de passagem.

Garota Exemplar começa e termina com o close da cabeça de Amy (Rosamund Pike), a garota exemplar do título brasileiro e também da série de histórias infantis que enriqueceu seus pais. Ela é linda, seu corte de cabelo é perfeito (um exemplo de caracterização) e sua vida também parece ser impecável. Mas ela desaparece no dia do seu aniversário de casamento com Nick (Ben Affleck),a Gone Girl do título original, transformando o marido no principal suspeito de assassinato.

O filme inteiro é sobre como a gente lê fatos, inventa as próprias histórias e acredita piamente nelas. Seja Amy, a menina perfeita, Nick, o escritor e jornalista frustrado que volta para a cidade natal e depende da mulher para sobreviver, ou o público, que busca qualquer revelação do caso para montar uma teoria definitiva. E assim, as quase duas horas e meia do filme passam voando, como numa sessão de hipnotismo.

Do outro lado da câmera estão Gillian Flynn, que adaptou seu livro para as telas, e o diretor David Fincher, com sua precisão assustadora. Rosamund Pike surpreende e rouba a cena, ela não é mais uma irmã Bennet de Orgulho e Preconceito – dizer mais seria spoiler -, e Ben Affleck deixa uma pulga atrás da orelha. Às vezes parece ser o ator perfeito, com aquela estranheza e sorriso sem graça, e nos outros momentos, a gente adoraria que fosse outro ator.

Garota Exemplar é um grande filme que merecia mais atenção do que recebeu. É para ver e não desgrudar os olhos.

dentro da tv: mad men

mad menEste post entraria direitinho na categoria Rapidinha nos Bastidores. Mas é Mad Men, que volta hoje com seus derradeiros sete episódios. Lá na quinta temporada, eu fiz um post de curiosidades da série, agora vamos para a segunda parte!

O showrunner Matthew Weiner ficou entre Peter Hermann e Jon Hamm para o papel de Don Drapper. Hamm fez sete testes para convencer que era o ator certo. Weiner não conhecia Hamm, mas sabia que ele, assim como Don Drapper, não tinha sido criado pelos pais. De fato, Hamm perdeu a mãe aos 10 anos e foi criado pela avó. Aos 20, perdeu o pai. Numa entrevista, Hermann disse que lamenta até hoje não ter ganhado o papel.

mad men 3Christina Hendricks estava tão nervosa para gravar o episódio piloto que suas mãos tremiam. Sua primeira cena foi com Elisabeth Moss, em que ela tinha que acender um cigarro. Seu caminhar balançante é resultado do figurino apertado que não a deixou andar normalmente. A atriz estava escalada para fazer um outro piloto, mas preferiu Mad Men. Sua agência ficou louca com a decisão, pois o canal AMC não era conhecido por suas produções originais e eles temiam que a série não iria pra frente. “Assim você nunca vai fazer dinheiro pra gente”, ela ouviu. Foi o bastante para ela procurar uma nova agência.

Depois de participar de alguns episódios da quinta temporada, como a amante do Pete, Alexis Bledel começou a namorar Vincent Kartheiser. Os dois se casaram em 2014. Na série, Alison Brie foi a mulher de Pete e Weiner disse que não tinha dinheiro para torná-la parte do elenco regular. Ele achava que Community não iria pra frente, o que a tornaria disponível mais tarde. “Foi uma lição que aprendemos”, ele disse, se arrependendo.

mad men 6The Suitcase, considerado o melhor episódio da série (até agora), foi escrito como um episódio econômico e de enrolação. Econômico porque a verba para a temporada estava na ponta do lápis, e pelo ponto de vista da história, nada de relevante acontece no episódio. Então usou-se o menor número de pessoas possível na produção, com poucos personagens e poucas locações.

Entre as temporadas quatro e cinco, houve um hiato por motivos contratuais. O canal e o estúdio queriam diminuir os custos, e Weiner entrou numa longa negociação. O hiato foi de dois anos para o espectador. O episódio Mystery Date, da quinta temporada, em que Peggy e Roger negociam o valor do trabalho dela é uma alusão ao ocorrido.

mad men 5Roger ia morrer na primeira temporada. Tudo porque John Slatery estava trabalhando em Desperate Housewives e Weiner não sabia se ele queria continuar em Mad Men.

John Slaterry e Jessica Paré foram pai e filha na série Jack & Bobby. O Jack da série era interpretado por Matt Long, que foi o redator Joey em Mad Men.

Jessica Paré fez teste sem saber qual seria sua personagem e nem o que faria. Sua única fala no primeiro episódio em que apareceu foi “Sim, Joan”. Quando Megan e Don se beijaram pela primeira vez, ela e todo mundo acharam que seria o fim da Megan. Dias depois, ela recebeu um telefonema de Weiner, que disse que Don iria pedir a mão de Megan em casamento e que ele precisava medir o dedo dela para a aliança.

mad men selfieJulia Ormond, que faz a mãe da Megan, é fanática pela série. Ela já terminou um relacionamento porque seu parceiro viu um episódio antes dela.

Matthew Weiner chega a ser paranoico quando se trata de sigilo. Absolutamente nada pode vazar antes da estreia da temporada. Os atores do elenco regular não podem falar nada, e os convidados precisam assinar um acordo de sigilo. Os DVDs enviados previamente aos críticos vêm com um bilhete pedindo, encarecidamente, que não contem nada da trama.

mad men 7A venda do cigarro Lucky Strike dobrou desde que apareceu como cliente na série.

O ator que faz Freddy Rumsen, Joel Murray, é irmão do Bill Murray.

Kiernan Shipka, a Sally Drapper, nunca viu um episódio da série. Ela disse pode ver a série hoje, mas como antes (no início) não podia, ela prefere esperar o fim para ver tudo de uma vez.

mad men 4Jon Hamm levou do set a placa ‘Think”, que aparece na sala do computador.

mad exposição

Há um ano a curadora Barbara Miller trabalha diretamente com a produção de Mad Men para montar a exibição Matthew Weiner’s Mad Men, que abre as portas neste mês no Museum of the Moving Image, em Astoria, Nova York. É a maior exposição já montada sobre a série, com cenários, figurinos originais, o roteiro original de 1992 e anotações pessoais de Weiner. Um delírio! mad men anotaçoes mad men caixa don mad men cozinha mad men cozinha detalhe mad men figurinos mad men sala dos roteiristas mad men scdp As anotações do Matthew Weiner para os roteiristas, a caixa de segredos do Don, a cozinha de Don e Betty, o figurino, a sala dos roteiristas e o escritório do SCDP a partir da 4ª temporada.

A exposição vai até meados de junho.

duas comédias para abrir o ano

Como já disse mil vezes aqui, séries de comédia não são o meu forte. Já expliquei também porque a comédia é vista como a prima pobre das artes dramáticas. Resumidamente, o que é triste, emocionante e dramático é assim em qualquer lugar do mundo. Já a comédia não agrada a todos. O que é engraçado aqui pode não ser considerado engraçado lá, e vice-versa. Este nariz de cera foi só para dizer que séries cômicas não me prendem facilmente, mas gostei de duas estreias na televisão.

last man on earthA primeira é The Last Man On Earth, a prova de que todo homem é bobo e toda mulher é chata. A história se passa em 2020, depois de uma epidemia que matou toda a humanidade, menos Phil (Will Forte – gosto tanto dele), que passou um ano viajando pelos EUA à procura de algum sobrevivente. Phil é um cara mediano. Não é especialmente inteligente, bonito nem nada, mas tem conhecimento suficiente para coletar obras de arte, relíquias históricas e o roupão do Hugh Hefner. Num primeiro momento, ser o único habitante da Terra é um sonho, mas a solidão vem e ele se vê como o náufrago do Tom Hanks. Quando a razão de viver acaba, eis que aparece uma mulher! Seria a linda da Alexandra Dadario? Não, mas a mulher mais chata do universo, Carol (Kristel Schaal), que insiste em seguir regras e leis num mundo pós-apocalíptico. E ela quer repovoar o mundo!

O argumento é dos diretores Christopher Miller e Phil Lord (ambos de Tá Chovendo Hambúrguer, Uma Aventura Lego e Anjos da Lei) para um filme. Will Forte escreveu o episódio piloto (que na verdade são dois episódios seguidos) e também bate ponto como produtor. A série é da Fox, mas parece ser de canal a cabo. Não só porque o investimento é alto, mas o tratamento difere dos colegas da tv aberta. Há nuances, silêncios, nada de piada cronometrada, e um estilo de humor próprio. Não é de dar cambalhotas de tanto rir, mas tem seu charme e interesse.

XXX KIMMY SCHMIDT TV A ENTA outra série também difere no estilo, fugindo totalmente do sarcasmo e cinismo que cobre todas as produções atuais. The Umbreakable Kimmy Schmidt é uma criação da dupla de 30 Rock, Tina Fey e Robert Carlock. Dá pra dizer que The Umbreakable Kimmy Schmidt é uma dose café com leite de 30 Rock, mas sua protagonista compensa o humor mais fofo.

Durante 15 anos, Kimmy Schmidt (Ellie Kemper) viveu num abrigo nuclear com outras mulheres vítimas de uma seita apocalíptica. Ao serem resgatadas, elas viram as mulheres-topeiras e se tornam uma comoção nacional. Kimmy resolve então tentar a vida em Nova York, onde seu entusiasmo e inocência são suas armas. Ela acaba dividindo o apartamento com Titus, um ator fracassado e desempregado da Broadway, e consegue um emprego como babá na casa da lunática Jacqueline (Jane Krakowski).

Kimmy foi especialmente escrita para Ellie Kemper, que consegue fazer uma personagem empolgada e positiva sem cair na irritação e infantilidade. Acerto total! O texto tem seus altos e baixos, mas quando tem seu momento 30 Rock, é de dar gargalhadas. Destaque para a participação especial de Martin Short como o cirurgião plástico Dr. Franff.

The Umbreakable Kimmy Schmidt nasceu como uma série do mid-season da NBC. Ao perder o interesse na série, a Netflix a comprou e já com o acordo para a segunda temporada – win win. Os sete primeiros episódios precisaram ser reeditados, pois estavam montados para ter intervalos comerciais. É uma série simpática e bem inteligente.

 

o oscar 2015

vencedores oscarComo sempre, foi uma noite bem longa, mas, paradoxalmente, enxuta. Como a grande maioria dos filmes indicados era independente, havia um clima de camaradagem, leve como o Spirit Awards, que este ano serviu como uma prévia do Oscar. As pessoas foram ao Dolby Theater com o intuito de celebrar o cinema e aplaudir os colegas. Não teve carão, todos que ganharam ficaram imensamente felizes por vários motivos. O principal é que eles sabem que está cada vez mais difícil fazer filmes como Birdman, Boyhood, O Jogo da Imitação, Whiplash, O Grande Hotel Budapeste, Selma… Então, ser reconhecido por uma indústria que tem dito não aos filmes independentes é justamente a glória.

Neil Patrick Harris estava morno, conseguiu fazer uma limonada com os limões que recebeu. O roteiro riu de si mesmo fazendo autocríticas o tempo todo. Num Oscar de pouca diversidade, as minorias falaram mais alto. Patricia Arquette reivindicou igualdade salarial. Foi ovacionada e arrancou gritos de “é isso aí, mana” de Meryl Streep. John Legend e Common emocionaram ao apresentarem Glory, do filme Selma. Ganharam e subiram ao palco pedindo que a luta por igualdade, democracia e  justiça continue em todos os lugares do mundostreep arquetteglory pine

Graham Moore, roteirista de O Jogo da Imitação, vencedor na categoria roteiro adaptado, fez um desabafo. “Quando eu tinha 16 anos, eu tentei me matar porque eu me sentia esquisito e me sentia diferente e sentia que não pertencia a lugar nenhum. E agora que eu estou aqui eu gostaria de dedicar esse momento aos jovens por aí que sentem que são estranhos ou diferentes ou que não se encaixam – sim, vocês se encaixam. Eu prometo. Permaneçam estranhos, permaneçam diferentes, e quando chegar a sua vez, e vocês estiverem sobre esse palco, transmitam essa mensagem para as pessoas que virão depois de vocês.” Lembrou o discurso do Dustin Lance Black.

E então veio o momento mais bonito e surpreendente da noite. Lady Gaga cantou e encantou um medley de A Noviça Rebelde. Nos fez querer escalar todas as montanhas. Até a semana passada, ela estava sendo taxada pela mídia como uma piada, uma pobre fracassada sem talento, irrelevante, mesmo tendo feito uma linda apresentação no Grammy (e ganhou) e sido convidada por Paul McCartney para uma gravação. Vê-la cantando perfeitamente e sendo ovacionada foi basicamente a síntese de cada filme indicado neste Oscar, que recebeu tantos nãos e percorreu um longo caminho até conseguir alguma visibilidade, por méritos próprios. Julie Andrews entrou em cena e eu chorei. julie andrews gaga

Teve surpresas: Whiplash abocanhou mais que um Oscar e garantiu uma boa carreira para o diretor Damien Chazelle. Big Hero 6 venceu Como Treinar Seu Dragão, Boyhood não levou nem em edição, onde era favoritíssimo, Alexandre Desplat ganhou por O Grande Hotel Budapeste, e não por O Jogo da Imitação, como se previa. Birdman levou até em roteiro original, onde todos juravam que ia dar O Grande Hotel e o curta The Phone Call ultrapassou Boogaloo and Graham.

Finalmente deram um Oscar pra Julianne Moore!!! John Travolta está cada vez mais esquisito e todo mundo, com ou sem Oscar, teve uma noite de Cinderela. Até o ano que vem! cumberbatch

oscar 2015 e meus pitacos

Filme: Birdman. Nem todos entenderam Boyhood e a campanha de Birdman cresceu muito nos últimos minutos. Fora que é aquele filme que todo mundo gostaria de ter feito. Quem merece: Birdman, Boyhood e O Grande Hotel Budapeste.
Direção: Richard Linklater (Boyhood). Um jeito de premiar Boyhood com um Oscar importante. E seria super merecido. Iñárritu também merece.
Atriz: Julianne Moore (Para Sempre Alice).
Ator: Eddie Redmayne (A Teoria de Tudo). Ele arrasou, mas tem tudo o que a academia gosta. É uma cinebiografia, uma interpretação física, é jovem e ainda é inglês!
Atriz Coadjuvante: Patricia Arquette (Boyhood). Ela simplesmente brilha.
Ator Coadjuvante: J.K. Simmons (Whiplash). Chega a ser assustador. “Not quite my tempo.”
Roteiro Original: O Grande Hotel Budapeste – Wes Anderson.
Roteiro Adaptado: O Jogo da Imitação – Graham Moore.
Edição: Boyhood. Não entendo como Birdman não foi indicado.
Fotografia: Birdman – Emmanuel Lubezki.
Figurino: O Grande Hotel Budapeste – Milena Canonero
Filme Estrangeiro: Ida. Adoraria que Relatos Selvagens levasse, mas acho que a campanha atrasou um pouco. Pode dar Leviathan.
Animação: Como Treinar Seu Dragão 2.
Canção: Glory – Selma ou I’m Not Going to Miss You – Glen Campbell: I’ll Be Me.
Trilha: A Teoria de Tudo – Alexandre Desplat. Acho absurdo Whiplash e Birdman não terem sido indicados.
Design de Produção: O Grande Hotel Budapeste
Cabelo e Maquiagem: Foxcatcher.
Edição e Mixagem de Som: Birdman.
Efeitos Visuais: Interestelar.
Curta de Animação: Feast (O Banquete).
Curta-metragem: Boogaloo and Graham.
Documentário: CitizenFour.
Documentário Curta: Crisis Hotline: Veterans Press 1