o lirismo de uma novela

meu pedacinho de chão zelaoMeu Pedacinho de Chão foi ao ar, originalmente, entre 1971 e 1972. Era uma novela educativa, segundo seu autor, Benedito Ruy Barbosa. Ensinava ao homem do campo coisas como tétano, verminose e outros perigos suscetíveis quando se tem menos instrução, mas Barbosa não conseguiu falar sobre a miséria e os maiores problemas rurais, afinal, eram tempos de Ditadura. Já a Meu Pedacinho de 2014, Barbosa prefere dizer que é uma nova novela, não uma nova versão nem recriação. Ao mesmo tempo que fala de reforma agrária e coronelismo, o lúdico e fantasia encantam de forma rara na televisão.

Quem comanda Meu Pedacinho de Chão é Luiz Fernando Carvalho, diretor com quem Barbosa trabalhou nos marcos Renascer e O Rei do Gado. Carvalho é um diretor especial, muito mais de minisséries que de novelas. São deles outras obras-primas da tv brasileira, como Os Maias (suspiros), Hoje É Dia de Maria e Capitu. É dele a assinatura artesanal da novela, cheia de simbolismos. Havia uma preocupação se ele conseguiria manter essa qualidade ao longo dos meses. E a resposta é, até agora, sim, com louvor.

Meu Pedacinho é uma novela micro. Tem apenas 20 personagens e até agosto serão meros 100 capítulos. Parece muito, mas é a metade do que uma novela das nove tem. Os cenários são tão complexos que não são desmontados depois das gravações e o elenco precisa chegar horas antes para passar pela caracterização. O visual (um colaborativo de vários artistas como Raimundo Rodriguez) não se sustentaria se o material não fosse bom, e é aí que o casamento de Barbosa e Carvalho realmente encanta. É a beleza de ver um texto tão delicado e bonito ser tratado como uma flor. É ver a transformação do jagunço Zelão (Irandhir Santos) depois de se apaixonar pela professora Juliana (Bruna Linzmayer), e depois a dor da rejeição. Ou o menino Lepe (Tomás Sampaio) indo à escola pela primeira vez para aprender a ler. A lindeza da fictícia Vila de Santa Fé só desabrocha com a chegada da professora, a maior inimiga do coronel Epa (Osmar Prado), que não quer que ninguém aprenda coisa alguma, nem sua própria filha. Juliana representa não apenas o conhecimento, mas o amor, como o da masculinizada Gina (Paula Barbosa), que descobre sua feminilidade e se vê apaixonada por Ferdinando (Johnny Massaro). E sempre com o cuidado da trilha sonora supervisionada pelo Tim Rescala, parceiro de outros carnavais de Carvalho.

meu pedacinho de chão juliana

A novela repete atores que estiveram em novelas há muito pouco tempo, como a própria protagonista  Bruna Linzmeyer e Antonio Fagundes, mas não há sensação de repetição porque Carvalho os colocou em papéis pouco prováveis. Fagundes, veterano que há anos faz o mesmo papel de patriarca, aqui é o dono da mercearia, quase um bonachão. É engraçado vê-lo contracenando com o filho, o médico Renato (Bruno Fagundes). O Pedro Falcão de Rodrigo Lombardi não tem nada de galã e Juliana Paes subiu uns cinco degraus como atriz (não que ela fosse ruim, mas sua Catarina tem mil camadas como seus vestidos, algo não visto nem quando ela protagonizou sua primeira novela).

O horário das seis tem experimentado bastante. Do cangaço real de Cordel Encantado (que teve post aqui), passando pelo texto super inteligente e realista de A Vida da Gente, até o lirismo de Meu Pedacinho de Chão. Não sou noveleiro como o texto me faz parecer (vejo muito pouco, pra dizer a verdade), mas se o futuro das novelas for este, talvez eu vire um.

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