o vento leva

vidas ao ventoO título original de Vidas ao Vento (Kaze Tachinu) é uma referência ao poema Cemitério Marinho, de Paul Valéry. “Ergue-se o vento! Há que tentar viver!” Mas o título em português também é perfeito e faz todo o sentido. Num Japão miserável entre duas grande guerras e um terremoto, todos tentam sobreviver. Jiro é quase um privilegiado, sonha desde criança em projetar aviões que não pode pilotar, já que é míope. Em seus sonhos encontra o projetista italiano Caproni, que desenhou o Ca.309, mas conhecido como Ghibli (vento do deserto, em líbio).  Nos encontros com Caproni, Jiro vislumbra seu futuro. Sonhar é o mesmo que voar para Hayao Miyazaki.

Durante a primeira metade do filme, Jiro estuda e trabalha incansavelmente na tentativa de projetar a mais bela aeronave, mesmo sabendo que ela será usada para a guerra. Muitos criticaram Miyazaki por ter dado um tom quase imaculado a  Jiro, o inventor do avião A6M Zero, a maior arma de guerra japonesa, que destruiu Pearl Harbor e matou outras milhares de pessoas. Humanista e pacifista como em todos os seus outros filmes, Miyazaki vê a beleza como algo efêmero, e assim seu Jiro também a vê. É a cerejeira em flor que embeleza um quadro, os aviões com asas de pássaro de seus sonhos ou simplesmente o ato de voar, interrompido pela necessidade de acordar.

A primeira metade chega a ser chata de tão detalhista, mas as coisas mudam com a entrada de Nahoko, a personificação da beleza. Vidas ao Vento é tão Luchino Visconti quanto Miyazaki. Nahoko é parte fantasiosa de uma história tão realista e brutal, é como Miyazaki idealiza o amor e como ele é necessário para se ter uma vida completa, de paz. Sendo a beleza efêmera, Nahoko sofre de tuberculose, algo tão pessoal para o diretor quanto os aviões.vidas ao vento 2

Miyazaki é filho e sobrinho de industriais ligados à aviação, daí vem sua paixão por máquinas voadoras, presentes em seus filmes. Sua mãe morreu de tuberculose espinhal, implicitamente dito em Totoro. Todas essas coisas fazem de Vidas ao Vento o filme mais pessoal de Miyazaki. Ao ver o poder destruidor adquirido por sua máquina, Jiro tem sua catarse. Não há seres fantásticos, heroínas, nem feiticeiros e bruxas, apenas a realidade e como ela pode ser fantasiosa e bela. “Ergue-se o vento! Há que tentar viver!”

Vidas ao Vento é o último filme de Miyazaki (ainda esperamos que a anunciada aposentadoria seja colocada de lado mais uma vez),  um encerramento poético.

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