batman vai a salém

A impressão que tenho é que está todo mundo numa histeria coletiva. Estão todos correndo em círculos com os braços para o alto esperando o alarme parar de tocar. E enquanto ele não toca, vale tudo. Quem grita mais alto ganha alguma coisa, algo que ninguém sabe o que é, nem se é bom ou ruim.

Quando um boato digno das bruxas de Salém corre pelas timelines dos habitantes do Guarujá de 2014 e uma inocente é espancada até a morte por uma multidão, já não é mais uma onda de pessoas histéricas, mas um tsunami. Uma multidão miserável que não tem capacidade de analisar, duvidar e nem criticar um alarde postado no Facebook. Uma multidão convicta que toma decisões precipitadas sem nenhum resquício de dúvida.

O poder público é quase ausente, e quando se mostra, é incompetente. Num primeiro momento é até compreensível a justiça feita com as próprias mãos, mas basta pensar um pouco para ver o quão desastroso isso é. Fabiane Maria de Jesus, a dona de casa do Guarujá, foi a vítima mais recente.

– Aê, é ela mesmo.
– É ela mesmo.
– Tem certeza, irmão, que é ela mesmo? Tem certeza?
– Ah, lá, na foto.
– Vou pegar a foto ali

E com diálogos assim, Fabiana foi amarrada e linchada. Quando a polícia chegou, achou que ela já estava morta, mas ela ainda agonizava e a morte só foi declarada no hospital, dois dias depois.

Lendo a notícia, as pessoas que criticaram o caso do menor assaltante preso com uma trava de bicicleta agora querem a resposta daqueles que aplaudiram a atitude dos jovens justiceiros do Flamengo. Querem também algum comentário da musa dessa gente, a jornalista Raquel Sheherazade. É uma bobagem querer alguma resposta destas pessoas, pois em nada mudará o rumo das coisas, pelo contrário, só vai piorar. São pessoas desencantadas com o Brasil, tão machucadas que assumem um discurso fatalista e automaticamente do contra. Algumas são apenas oportunistas, mas todo mundo quer arrumar as malas e fugir dessa terra de malditos que não tem mais jeito. É compreensível, assim como foi compreensível dizer “bem feito” quando o menor ficou preso pelado no poste. Afinal, exemplos absurdos não faltam: são os homens que jogaram um vaso sanitário do anel superior de um estádio em Recife e matam um torcedor, são dentistas queimados vivos por assaltantes, o garoto gay que foi brutalmente assassinado, os ônibus que são queimados diariamente…

Manter esta atitude alarmista quase destrutiva não vai adiantar em nada, mas também soa ridículo pedir esperança. No entanto, vale a pena mudar de perspectiva. Sair do lugar onde se está e olhar o problema de um outro ângulo. É algo que eu e um monte de gente acreditamos. Educação. Não há outro jeito. O Brasil ainda é um país que não dá a mínima para a educação. Dinheiro não falta, falta competência e transparência para aplicar. E se quem aplica é o governo, cabe a nós colocar gente competente nele.

“Ninguém presta, político é tudo a mesma coisa”, diz a maioria. Não, a preguiça diz isso. A mesma internet que propaga boatos também pode informar. Google existe para todos e é de graça. Assim como o dicionário. Quando não se dá valor à educação como ela merece, ela começa a ser distorcida. Uma escritora vai lançar O Alienista com uma linguagem mais “acessível” ao jovem de hoje. É o nivelamento por baixo com dinheiro público para ser distribuído em escolas públicas. Eu, em meus tempos escolares, usava um dicionário para entender o vocabulário “complicado” do Machado de Assis e podia contar com o trabalho do professor. Ora, se é função da escola provocar, questionar, duvidar e instigar, o que ela vai fazer quando o próprio governo quer facilitar as coisas? Como o professor vai falar das diferenças do português do século XIX com o de hoje? E este é apenas um sinal de que a educação precisa ser verdadeiramente uma prioridade. É o mesmo que proibir o dever de casa ou aceitar a aprovação automática. Esperar o pré-sal dar dinheiro não é necessariamente priorizar a educação.

Uma multidão educada saberia duvidar de um boato de Facebook. O post do Guarujá Alerta dizia que uma mulher estava sequestrando crianças para realizar rituais de magia negra. Um povo ignorante + criança+ magia negra = pânico e paranoia. É a repetição do Homem do Saco ou dos Palhaços da kombi, mas com a velocidade e consequências das internet. A foto que ilustrava o post era de um retrato falado feito pela polícia do Rio em 2012, de uma mulher que tentou roubar um bebê.  Um homem que aparece num do vídeos do linchamento foi preso, mas ele é o único responsável? E mesmo que a polícia prendesse todas as pessoas que assassinaram Fabiane, elas seriam as únicas responsáveis? Hoje, somos todos públicos, logo, responsáveis por aquilo que emitimos e reproduzimos. Num momento em que o Brasil atravessa uma guerra de interesses, é imperativo analisar e apurar.Coisas que aprendemos na sala de aula, ensino fundamental, nem é preciso fazer faculdade.

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4 comentários em “batman vai a salém”

  1. É triste saber a situação de como estão as coisas. Na escola eu passo o dia trabalhando em cima de boatos e historias que os outros contam. Fico até feliz de perguntarem e tirarem duvidas sobre mitos populares, mas fico frustrado de ver que se eu perguntar sobre aquilo uma semana depois, o mito popular voltou a mente das crianças. É meio assustador perceber que estamos reféns de diversas situações onde as pessoas parecem tão pouco dispostas a mudar e tentar entender o mundo ao seu redor. Vamos acabar em barbárie.

    1. Medo disso. 46% dos americanos acreditam no criacionismo e o governo gasta cerca de 1 bilhão de dólares por ano em forma de subsídios para escolas particulares que tem o criacionismo como matéria. É trabalho de formiguinha…

    2. Outra coisa que tenho visto muito: medicina alternativa e alimentação. São campanhas contra a vacinação, alimentação vegana (tem gente que quer que o cachorro e gato sejam veganos) e o uso maluco de vitaminas.

  2. Republicou isso em serorie comentado:
    Vale muito a pena a leitura deste post do meu amigo Alexandre, do blog i’m bloody ibiza.
    Vamos usar o cérebro, pessoal. Ainda é o melhor aplicativo que existe.

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