lincoln, o contador de histórias

lincolnVenci a preguiça de ver Lincoln. Bom, é verdade que é longo, em muitos momentos é chato e se você não conhecer o contexto do filme, provavelmente vai boiar por 150 minutos. Mas também é um filmaço: o roteiro afinadíssimo do  Tony Kushner (Munique e Angels in America) para um elenco igualmente afinado, – eu fiquei impressionado com os atores que o Spielberg conseguiu, e muitos trabalhando como há muito tempo não tinham oportunidade.

Lincoln é sobre o poder da palavra e não parece um filme de Spielberg. Quase não há closes, aquele sentimentalismo característico nem dá as caras e a trilha sonora do John Williams é quase imperceptível. Fora dos Estados Unidos, o filme tem um pequeno resumo histórico como epílogo, apenas para familiarizar o espectador. O ano é 1895, a guerra civil dividiu o país em União (Norte) e Confederados (Sul) e está em seu quarto e último ano. Mais de 600 mil soldados morreram nesses anos e o Sul já não aguentaria por muito tempo. Uma das questões da guerra era que os estados do Sul queriam a independência, pois com o fim da escravidão, a economia agrária sofreria um grande baque. Lincoln tinha duas opções. Encerrar de vez a guerra ou estendê-la mais um pouco para aprovar na Câmara a emenda que acabava de vez  a escravidão. Lincoln e os defensores da abolição poderiam tentar aprovar a emenda depois do fim da guerra, mas isso seria difícil de acontecer, já que os estados do Sul não mais se sentiriam pressionados.

O esqueleto do filme é Daniel Day-Lewis. Desde que a primeira foto dele caracterizado como o presidente saiu, já se sabia que o Oscar é dele. E vai ser merecido, porque é um trabalho fe-no-me-nal, em momento algum dá para dizer que é o Daniel Day-Lewis interpretando Lincoln. A postura, o andar cansado, a voz frágil e confiante, a respiração, isso tudo mais a maquiagem perfeita que lhe envelheceu décadas (Lincoln tinha meros 56 anos em 1865). As longas discussões políticas na primeira metade do filme me fizeram dar uma cochilada, mas depois acordei de vez e nem senti a longa duração. O Lincoln que gostei é o Lincoln homem, com problemas familiares e muito solitário. Spielberg disse que não havia motivo para endeusar uma pessoa que já é uma lenda, e é verdade. Aí entram Sally Field, fantástica como a bipolar primeira dama Mary Todd (só a grande cena de discussão já vale a indicação ao Oscar), Joseph Gordon-Levitt (tá em todas) como o filho mais velho Robert e o caçula Gulliver McGrath, como Tad Lincoln, que lê A Origem das Espécies.

Como eu disse lá em cima, é um filme do Spielberg que não parece filme do Spielberg. Há pouca ação e muitos diálogos. Lincoln é sobre o poder da palavra. E ele fala, e como fala! Seja para negociar nos conchaves políticos ou para contar uma de suas histórias inspiradoras e edificantes. Como também já disse, o roteiro do Tony Kushner é brilhante e o elenco faz jus a ele. David Strathairn, Tommy Lee Jones, James Spader (irreconhecível), Hal Holbrook, John Hawkes, Lee Pace, Jackie Earle Haley e Jared Harris. Todos incríveis. Faça o dever de casa e vá ver o filme.

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5 comentários em “lincoln, o contador de histórias”

    1. Eu geralmente sento nas fileiras centrais do cinema. Dessa vez, só tinha lugar um pouco mais pra frente, então fiquei de cara exclusivamente pra tela. Parecia que eu estava naquele quarto! Épico.
      O Spielberg planejou Lincoln há muito anos e tinha convidado a Sally Field para o papel. Só que o filme acabou não acontecendo. Quando finalmente retomou o projeto, acharam que ela estava velha demais. Ela pediu para que o Spielberg a testasse novamente e o Daniel Day Lewis também quis que ela fizesse o filme. Ainda bem!

      1. Eu chorei com força com aquele jogo cênico, com as forças, com as palavras…
        É uma cena pra ter em casa e rever, e rever…

        Confesso que na minha cabeça Sally é velha e o Daniel é novo. Entao, a principio, também achei q seriam um casal destoante. Eu nao poderia estar mais errado. Ainda bem q ela se juntou à equipe.

      1. Vi, sim, percebi na hora.
        Um parenteses: percebeu a quantidade de gente de TV que está nos filmes indicados? Kyle Chandler (duas vezes), Brian de Breaking Bad, Clea Duvall, o Adam, o Lee de Pushing Daises… Isso me chamou mta atenção.

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