me conta uma história

as aventuras de piÀs vezes me perguntam por que eu gosto tanto de filmes. Bom, eu tenho uma necessidade maluca por histórias e uma queda por tudo que é visual. Quando um cineasta consegue pegar uma história fantástica e usar tudo que o cinema pode oferecer, o resultado é um poder absoluto sobre mim. Eu não sei explicar, é algo transcendental, sem exageros. Ang Lee é um dos cineastas vivos mais sensíveis, refinados e simples do mundo, e ao contar a vida de Pi nas telas, ele me arrebatou. Há tanta beleza que dá vontade de chorar.

As Aventuras de Pi é a adaptação de A Vida de Pi (por que não este título?), de Yann Martel, que, por sua vez, se inspirou em Max e os Felinos, de Moacyr Scliar. No livro do Scliar, Max, um jovem judeu, foge da Alemanha nazista para o Brasil num navio cargueiro que transporta animais para um zoológico. O navio é propositalmente afundado e Max se vê num bote com uma onça. Já na história de Martel, Pi é um jovem indiano que vai com a família e os animais do zoológico para o Canadá. No meio do caminho, o navio naufraga e Pi é o único sobrevivente, junto com o tigre de Bengala Richard Parker. Scliar pensou em processar Martel por plágio, mas após uma longa conversa entre os dois, ficou por isso mesmo.

Pi, assim como eu, tem uma urgência por histórias, é por isso que segue tantos caminhos espirituais – ele é um cristão, muçulmano e hindu – e tenta encontrar uma comunhão entre natureza, matéria e espírito, enquanto seu pai é pragmático, acredita apenas em fatos, na razão e na ciência. Mas o dono da história é Pi, e é ele quem nos conta tudo, e nada é mais poderoso que contar uma história. Felizmente, Ang Lee entendeu isso perfeitamente, fez amarras e depois soltou todos os nós, deixando Pi à deriva para encontrar seu caminho, primeiro na companhia de uma zebra, um orangotango e uma hiena, depois, só na companhia de Richard Parker. E que companhia!

Um livro, uma fofoca, uma música, um filme, enfim, uma história pertence única e exclusivamente a quem a conta, então, não necessariamente, se amarra apenas no que aconteceu, mas no que a pessoa acredita ser melhor para contar. E depois, quando atinge outras pessoas, tudo muda, ganha outros significados, interpretações, quartos, ambiguidades… Essa é a mágica, esse é o poder da história. As Aventuras de Pi é justamente sobre isso, é mais que uma fábula.

As imagens são fantásticas. Como eu disse lá em cima, Ang Lee é refinado e simples. Em entrevistas, ele disse que agora entende as complicações de se filmar na água e com um tigre (o tigre verdadeiro fez pouquíssimas cenas, nas outras, a perfeita computação gráfica do mesmo estúdio que deu vida ao Cesar de O Planeta dos Macacos e o leão de Nárnia). As filmagens devem ter sido complexas mesmo, mas o que se vê na tela é livre de qualquer complicação. Tudo é orgânico, até o 3D. Eu esqueci que estava de óculos, e mesmo que eles me incomodassem, valeria a pena só para ver o mar se fundindo com o céu ou a fúria da vida que acontece mais para o final do filme. Fora isso, os créditos iniciais mostrando os animais do zoológico são como pinturas de Henri Rousseau. A Índia de Ang Lee não tem cores vibrantes, são como doceria francesa. E falando em Índia, ninguém seria melhor Pi que o novato Suraj Sharma.

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8 comentários em “me conta uma história”

  1. Quando li um tal “As Aventuras de Pi” não dei nem bola e passei batida, mas esse nome continuava aparecendo em sites que eu visitava então decidi ver o trailer e esse se juntou a coleção dos poucos trailers que arrepiam os pelos e queria ver imediatamente, mas esse não vai dar pra ver no computador, esse eu faço questão de ir no cinema!

  2. Eu gamei nesse filme. Pelo título, nao me animei a ir, mas depois fui conhecer a história e fiz questão de assistir antes de ir pra Avelar no Natal, pois Juiz de Fora nao é confiável em manger filmes em cartaz.

    Me surpreendi com tudo. Foi uma filme que assusta e realmente é mto simples. Nos faz querer mais.

  3. Filme lindo demais. O elenco está ótimo e o filme é um dos mais belos que já vi. Engraçado como o filme não é cansativo, apesar de ter achado os minutos finais meio lentos(mas essenciais).

    1. Eu gostei muito como a câmera foi fechando no Pi a medida em que ele conta a outra versão da história. O fundo é branco, em contraste ao deslumbre que foi toda a história com Richard Parker.

    1. Sabe o que mais gostei? As pessoas estão estão gostando muito do filme. Cada um está tendo sua própria interpretação da história, dos símbolos… Acho que o Ang Lee deve estar muito feliz com a resposta do público.

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