impressionismo e cinema

Um dos meus sonhos é ter uma noite exclusiva no museu, só para mim, e vendo tudo apenas com a ajuda de uma lanterna, mais ou menos como no Paciente Inglês. Dentro das circunstâncias, posso dizer que hoje ele foi parcialmente atendido. Depois de semanas com imensas filas de duas horas e meia, finalmente fui ver a badaladíssima exposição sobre os impressionistas, parte do rico acervo do Musée d’Orsay que já passou por São Paulo com a mesma força. Foi de manhã, antes das oito, nem dez pessoas na fila e entrada imediata (virada cultural do CCBB). As portas da sala estavam fechadas, o segurança deu as orientações do que não fazer (porque o povo é bem sem noção) e depois desejou uma boa visita como se estivéssemos numa montanha-russa entrando no País das Maravilhas.

Eu fiquei arrepiado no meio de tantos Renoir, Degas, Monet e cia ilustre. Juro, não é conversa para boi dormir. Não pela popularidade das obras ou pela beleza, mas porque eram obras originais, e não reproduções. A gente se acostuma a vê-las em calendários, quebra-cabeças e coisas do tipo, mas quando vê as originais, em seus tamanhos e cores reais, vem um baque! Não sei explicar direito por quê, mas para mim isso é algo fantástico. É algo que nenhuma fotografia do quadro ou cópia fiel consegue transmitir, só estando a alguns centímetros de distância para entender. Quantas histórias não existem por trás do quadro, ou melhor, dos quadros? Estas obras de arte, além de seus simbolismos, significados e significantes, têm memória.

E ali, naquela Paris imaginária do fim do século retrasado, eu percebi o quanto o cinema é impressionista. O Tocador de Pífano, que é a tela símbolo da exposição, é um bom exemplo. Édouard Manet pega uma criança tocando um pífano numa orquestra e o destaca simplesmente tirando todo o segundo plano. Não é quase o mesmo que o Joe Wright – e tantos outros – faz em Orgulho & Preconceito para exaltar o flerte de Darcy e Elizabeth?

O Impressionismo foi “inaugurado” por Monet em 1872, foi uma quebra de regras. Retratar fielmente algo não mais importava, o passado era velho e o mundo estava mudando. O importante era encontrar luz e movimento. “Luz e movimento”? Isso se chama Cinema. Alguns anos mais tarde, em 1895, os irmãos Lumière exibiam um filme pela primeira vez. No início eram cenas do cotidiano, como a saída de operários de uma fábrica ou a chegada de um trem na estação, mas não tardou para o cinema ganhar as formas como conhecemos hoje: sets, narrativas, enquadramentos… da mesma maneira que Millet pintou seus camponeses, Degas e Renoir pintaram retratos cuidadosamente posados, Van Gogh distorceu sua visão e Monet diluiu seus jardins. Já em 1901, Ferdinand Zecca apareceu voando sobre Belleville em seu filme A Conquista dos Ares, e George Méliès começou sua empreitada como pai dos efeitos visuais.

Talvez aquele baque que eu falei parágrafos acima seja essa urgência de ser fantástico e rotineiro. De dar movimento e procurar luz, ou usar sombras, seja por pinceladas aparentes ou através de lentes. O interessante é que hoje procuramos a melhor imagem possível, sempre em altíssima definição com milhões de pixels para ser o mais “realista” possível. Um cenário precário não engana mais, assim como as rugas e imperfeições ficam evidentes. E lá na Terra Média, Peter Jackson filma os Hobbit com uma câmera de 48 frames por segundo, o dobro das câmeras atuais. Quem já viu o resultado detestou a hiper nitidez, disseram que tira o mistério e o encanto das imagens. Fica igual a um Gauguin, com tudo trazido para o primeiro plano, sem perspectiva, mas em cores reais.

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2 comentários em “impressionismo e cinema”

  1. Nossa, que máximo! Não fiquei sabendo que essa exposição passou por SP. Amo o impressionismo. Me lembro quanto tinha uns 10 anos e vi pela primeira o Rosa e Azul de Renoir em alguma enciclopédia perdida do sótão de casa, e me lembro que fiquei um bom tempo olhando aquela imagem, os vestidos, as cores, o modo que foi pintado, eu só conhecia o traçado reto. Depois sei que fiquei doida, procurando tudo que fosse a respeito desse tal Renoir e foi ai que vi a palavra impressionismo, e que maravilha de movimento que é esse. Acho que de todos, o impressionismo é o meu preferido. E você tem razão quando diz que ver uma peça original é outra sensação, foi isso que senti também quando fui a exposição do Caravaggio aqui em SP. O que posso dizer? As artes são maravilhosas! Você já ouviu falar da Alexa Meade? é uma artista que pinta pessoas e essas ficam parecendo quadros impressionistas, ela é incrível!

    1. Dei uma super má sorte este ano com exposições. Quando estive em SP da última vez, a exposição sobre o Jorge Amado tinha acabado de acabar no Museu da Língua Portuguesa e faltava uma semana para a do Caravaggio.
      Meus tios encomendavam calendário todo ano, e era sempre com pinturas impressionistas. Não que eles admirassem o movimento e tal, eles apenas achavam bonito. Para eles, uma pintura bonita era Degas e Renoir (sempre tinha muito Renoir). Eu gostava mais de Van Gogh.
      Não, não conhecia Alexa Meade, não.

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