clássico da semana: crepúsculo dos deuses

Era uma ideia que queria colocar em prática já há algum tempo: falar de um filme clássico toda semana. Não acho que ninguém deva assistir um filme por obrigação, mas acho que se você quer entender muita coisa do que é produzido hoje, deve olhar um pouco para o passado. Às vezes nem tão passado assim, acho que filmes clássicos já nascem clássicos, vide Sangue Negro, do Paul Thomas Anderson. Afinal, clássicos não têm idade.

Sim, tem muito filme bom, importante e clássico que é um saco de se assistir, mas os que eu quero colocar aqui são os clássicos legais, e acho fundamental começar com Crepúsculo dos Deuses (Sunset Boulevard, Billy Wilder, 1950), é o filme que melhor fala sobre Hollywood e cinema. E a sequência final é uma das mais geniais da história!

O criado Max (Erich von Stroheim) faz Norma Desmond (Gloria Swanson) acreditar que está no set de filmagem de Salomé, produção que ela tanto queria que fosse seu retorno triunfal ao cinema depois décadas no ostracismo. Tudo não passa de um truque para que ela se entregue à polícia após matar o roteirista Joe. Na mansão, muitas câmeras, luzes e pessoas – a polícia e a imprensa. Norma desce lentamente a escadaria e, emocionadíssima, diz que nada mais importa, “apenas as luzes, as câmeras e todas aquelas pessoas na escuridão”. E completa: ‘Muito bem, sr. DeMille, estou pronta para meu close-up’. Norma se dissolve no fade out.

Não se preocupe. Não é spoiler contar o final antes de qualquer coisa, pois Crepúsculo começa no exato momento em que os carros da polícia e da imprensa chegam à mansão de Norma Desmond. Na piscina, o corpo de Joe (William Hoden). Fotógrafos disparam flashes sem piedade e Joe começa a contar, em off, como ele foi parar na piscina. E entre a abertura e o último fade out, sequências cruéis, melancólicas,  críticas e de compaixão sobre o que é a indústria do cinema.

Na história, o roteirista Joe Gillis está sem trabalho e deve dinheiro a todos. Seu único bem é um carro que os cobradores querem lhe tirar. Para despistá-los, Joe acaba se abrigando na mansão de Norma Desmond, outrora grande estrela do cinema mudo e reclusa há anos. Como disse lá em cima, Norma quer fazer seu grande retorno com Salomé, um roteiro que escreve há anos. Joe então é contratado para revisar o roteiro, mas vai ficando, ficando e se torna praticamente um gigolô. O outro habitante deste mundo esquecido é o mordomo Max, que um dia foi um promissor diretor e quem descobriu Norma. Sua adoração por ela é tão grande que aceitou virar seu criado e é quem forja cartas de fãs para que sua amada não se sinta desamparada.

Só de ler a sinopse você sabe que já viu esta história em algum lugar e diversas vezes. De O Artista até a Chayene, de Cheias de Charme. Essa é a importância de Crepúsculo dos Deuses. Dirigido e co-roteirizado por Billy Wilder, talvez mais conhecido por suas comédias como Quanto Mais Quente Melhor, Sabrina e Se Meu Apartamento Falasse, Wilder usa sua ironia para ter a indústria do cinema como pano de fundo. O que vemos na tela é desde a venda da ideia de um filme (o chamado pitch) até o descarte de quem um dia foi uma estrela. Lá pelo meio do filme, Norma entra num estúdio (pela primeira vez em décadas) para falar com Cecil B. DeMille (interpretando ele mesmo, no set de Sansão e Dalila), crente que ele dirigirá a sua Salomé. Carinhosamente, DeMille a faz sentar em sua cadeira e ela é reconhecida pelo técnico de iluminação. Ele aponta o canhão de luz nela e os figurantes mais velhos a reconhecem. É o único momento de felicidade para Norma. Poucos frames antes, ao chegar na Paramount, o carro de Norma é barrado no portão. Ela diz algo como “se não fosse por mim, a Paramount não existiria e você não teria seu emprego”. É triste porque não deixa de ser verdade. Num outro momento, Norma joga bridge com outros atores esquecidos, entre eles, Buster Keaton, o palhaço que não ri, fazendo papel dele mesmo, em fase decadente. Se sua expressão já era melancólica nos seus filme de sucesso, aqui ela é de chorar.

A linha entre ficção e realidade é quase invisível em Crepúsculo dos Deuses. Gloria Swanson foi uma grande atriz do cinema mudo e não filmava há quase dez anos. Erich von Stroheim foi um promissor diretor e dirigiu Swanson em Queen Kelly, um dos seus últimos filmes como diretor e que é mostrado numa cena – deve ter sido bizarro filmar isso. Além disso, todas as fotos de Norma espalhadas pela casa são do auge da própria Swanson.

Billy Wilder não permitia que seus atores improvisassem, o roteiro era seguido vírgula por vírgula. Nele, havia uma coluna com as falas e outra com as instruções de direção. Cada cena foi meticulosamente pensada, talvez por isso a sensação de naturalidade seja quase nula. Você sabe que o que está vendo é um filme de ficção, mas a verdade passada é tão real que faz Norma, Max e Joe caírem sobre as pessoas na escuridão.

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4 comentários em “clássico da semana: crepúsculo dos deuses”

  1. Ebaaaaaa!!! Que legal que você vai falar dos antigões! Ontem mesmo eu me deparei com um dos filmes da minha lista de antigos “O sol é para todos” passando na cultura e gostei bastante. A 3 anos atrás eu nem via a graça do cinema (muito pelos filmes ruins que meu pai alugava, e outros vezes os filmes que as pessoas a minha volta viviam falando. Filmes de aventura onde o cara é cercado por 50 homens, mas ele bate em todos e sai sem um arranhão). Eu percebi que realmente amo cinema com o 1° filme antigo que vi por acaso (Casablanca). Não tenho a experiencia de uma critica de cinema quando se trata de falar da qualidade técnica dos filmes, mas quanto mais eu vejo filmes antigos, mais eu aprendo de cinema, e é muito gostoso quando você não só assiste ao filme, só vê por ver, mas você o percebe, em todas as formas, entende? Ixi, Acho que já estou filosofando de mais kk, vou parar antes que você durma. Enfim… que bom que agora vou ter dicas de filmes clássicos pra ver. ^^

  2. Essa é a melhor experiência do cinema, não é? Eu amo quando um filme me dá uma piscada e eu aceito o convite. E você começou logo com Casablanca! Talvez o clássico mais lembrado de todos, e preferido de muitos.
    Eu sempre vi muito filme, desde os três anos de idade. Meus primos eram adolescentes na época, alugavam e copiavam filmes, que depois vinham parar aqui em casa (de My Fair Lady até Spielberg dos anos 80). Vi muito filme de ação também – hoje já não tenho muito saco. Mas a luzinha acendeu mesmo quando vi O Parque dos Dinossauros – pirei, li e vi tudo sobre como o filme foi feito. A coisa ficou séria quando vi, na tv, Os Pássaros (Hitchcock) e Sonhos (Kurosawa).
    Adoro O Sol É Para Todos, Atticus é um herói! Ia falar dele na semana que vem, mas vou colocar um épico na frente!

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