homens que amamos: hayao miyazaki

Se você ama cinema e nunca viu um filme de Hayao Miyazaki, por favor, corra para ver. Garanto que será, no mínimo, uma experiência diferente e única. Seus filmes têm uma naturalidade assustadora. Fantasia e realidade viram uma coisa só, a lógica é própria, faz você resgatar seus melhores sentimentos, emoções, sua inocência e ingenuidade.

Aqui no ocidente, o nome de Miyazaki só ficou realmente conhecido em 2002, quando A Viagem de Chihiro ganhou o Urso de Ouro em Berlim, foi comprado pela Miramax e depois ganhou o Oscar de animação no ano seguinte. Particularmente, acho uma bobagem quando dizem que a plateia ocidental pode ter dificuldade em compreender os filmes dele, pois são filmes universais, de um poder e alcance que derruba qualquer barreira. Ao mesmo tempo, são filmes de assinatura. Você os reconhece só pelos traços, e é isso que torna Miyazaki tão grande quanto Scorsese, Fellini, Hitchcock,  Kurosawa e outros poucos nomes (ou sobrenomes) do cinema.

Hayao Miyazaki é da primeira geração pós-guerra, nasceu em 1941, em Tóquio. É interessante ver como sua infância e juventude influenciam seu trabalho.  O pai era diretor de uma empresa aérea que pertencia ao tio, a Miyazaki Airplane, e por isso ele passou a infância e juventude desenhando aviões e veículos de guerra – onipresentes em seus filmes. De sua mãe veio a paixão pela leitura. Quando tinha seis anos, sua mãe começou um tratamento contra tuberculose espinhal, passando anos internada em hospitais.

A vida acadêmica de Miyazaki foi bastante movimentada. Quando tinha três anos, a região onde vivia precisou ser evacuada, e até o colegial, mudou de escola diversas vezes.  Quantos personagens de Miyazaki são recém-chegados ou se sentem deslocados?  A vontade de ser desenhista de mangás ficou mais forte no colegial (em 1947, a constituição japonesa proibiu qualquer tipo de censura, foi um período de grande crescimento criativo e também de reconhecimento), influenciado principalmente por Osamu Tezuka (Astro Boy, Jungle Taitei). O problema é que Miyazaki desenhava basicamente aviões e tanques, traços humanos eram difíceis para ele. Sua dificuldade acabou distanciando-o do estilo de Tezuka e ele criou o seu próprio.

O interesse pela animação veio também durante o colegial, quando viu e se apaixonou pela heroína de The Tale of the White Serpent, o primeiro longa de animação colorida do Japão, em 1958. A animação é sobre um menino que cria uma serpete e é forçado pelos pais a se separar dela. Anos depois, a serpente se torna uma princesa e procura pelo menino, já um homem. Os dois se apaixonam, mas são separados por um monge que acredita que ela é um espírito do mau. No final, a princesa abdica de seus poderes como prova de amor – quase todos os filmes de Miyazaki são protagonizados por mulheres, sempre fortes e dispostas a se sacrificar. Miyazaki foi para a universidade e se formou em Economia e Ciências Políticas.

No mesmo ano em que se formou, ele começou a trabalhar na Toei Animation. Em apenas um ano, ele se destacou entre os animadores e suas ideias modificaram o final de Gulliver’s Travels Beyond the Moon, lançado em 1965. No mesmo ano, ele se casou com Akemi Ota, também animadora, com quem teve dois filhos. Em 1968, já era diretor de animação da Toei e trabalhou pela primeira vez com o diretor Isao Takahata, parceria que durou 30 anos. Juntos fundaram o Studio Ghibli em 1985, como subsidiária da Tokuma Shoten (apenas em 2005 o Ghibli se tornou independente e Miyazaki conseguiu todos os direitos de seus filmes).

Miyazaki e Takahata deixaram a Toei em 1971 e passaram por diversos estúdios, fizeram alguns episódios da série Lupin III (a terceira geração do Ladrão de Casaca Arsène Lupin) e começaram os trabalhos de Pippi Longstocking (ou Pippi das Meias Altas). Os dois foram à Suécia para fazer pesquisas e negociar os direitos de adaptação, mas ele foram negados. Com o cancelamento de Pippi, Miyazaki se dedicou aos curtas de Panda! Go Panda!  Depois, se envolveu na produção da série Ana dos Cabelos Ruivos, mas abandonou o projeto para dirigir seu primeiro filme, um filme de Lupin III, O Castelo de Cagliostro.

O segundo filme foi baseado num mangá escrito pelo próprio Miyazaki, Nausicaä do Vale do Vento. É o filme que determinou as temáticas dos próximos: ecologia, o antimilitarismo, pacifismo e o feminismo. E o tom: nunca é didático e é sempre carregado de ambiguidade. Os filmes seguintes foram Laputa (1986), Meu Vizinho Totoro (1988) – aqui vemos o período em que a mãe de Miyazaki passou internada – e Kiki’s Delivery Service (1989). Totoro virou o cartão de visita e mascote do Studio Ghibli, e já um símbolo cultural japonês. Em 88, junto com Totoro foi lançado o drama de guerra Hotaru no Haka (O Túmulo dos Vagalumes), dirigido por Takahata. Como O Túmulo dos Vagalumes já era uma história conhecida pelos japoneses através do livro e Totoro era um investimento de risco, caso Totoro fosse mal de bilheteria, O Túmulo pagaria as contas. Além de balancear as recepções – a pessoa se acabava de chorar em um e depois se encantava no outro.

Porco Rosso (1992) é o único filme de Miyazaki protagonizado por um personagem masculino, um aviador antifascista transformado em porco. Alguns dizer ser um alter ego de Miyazaki. Cinco anos depois, Miyazaki lançou Princesa Mononoke, talvez a história mais complexa e violenta que já contou.

Depois de cada filme, Miyazaki anuncia sua aposentadoria, que dura apenas um tempinho. Em 2001 ele lançou A Viagem de Chihiro, o seu boom para o mercado ocidental. E em 2004 ele estreou O Castelo Animado. Ambos fizeram sucesso de bilheteria e público. Tanto Kiki’s Delivery Service quanto O Castelo Animado se passam numa Europa imaginária, decorrente da primeira viagem feita para a Suécia. Para ser mais exato, esta Europa imaginária é uma mistura de Paris, Estocolmo, Milão e Lisboa.

Em 2006, Goro Miyazaki, filho de Hayao, lançou seu primeiro longa como diretor, Contos de Terramar, adaptação do livro de  Ursula K. Le Guin. Contos de Terramar era um antigo sonho de Miyazaki pai, ele queria adaptá-lo desde Nausicaä, mas nunca conseguiu os direitos. Quando Ursula e a família procuraram Miyazaki para ceder os direitos, ele estava no meio da produção de Castelo Animado (aqui a história diverge: Miyazaki disse que não tinha mais interesse na história. Ursula disse que Miyazaki queria se aposentar depois de O Castelo Animado). O filme acabou nas mão de Goro, incentivado por um produtor do estúdio. Miyazaki foi contra a decisão por achar que o filho ainda não estava preparado para dirigir um longa. Ele estava certo. Durante os anos de produção de Contos de Terramar, os dois cortaram relação.

Ponyo, de 2007, foi uma volta aos filmes mais infantis. Todo em aquarela, foi feito especialmente para o neto de Miyazaki. Desde então, Miyazaki trabalha como produtor e roteirista – Arrietty e  Kokurikozaka kara (dirigido por Goro). Suas últimas notícias como diretor desmentem a continuação de Porco Rosso e apontam para a adaptação de Kaze Tachinu (algo como O Vento Ressurge), mangá do próprio Miyazaki que é uma biografia de Horikoshi Jiro, designer do avião militar Zero. O filme deve sair em 2013.

Escrevi este post ouvindo o concerto que celebrou os 25 anos do Studio Ghibli e a parceria Miyazaki e o compositor Joe Hisaishi (é o mesmo já postado no blog). Só no Japão é feito um concerto desta escala para festejar um estúdio de animação. Enquanto isso, aqui no Brasil… melhor nem falar.

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