a exótica família americana

Os antropólogos e documentaristas do início do século passado gostavam de se inserir em culturas diferente das deles para expôr os seus exotismos. Entre 1920 e 1930,  Margareth Mead fez isso na Nova Guiné e em Samoa, e inspirado nela, 40 anos depois, o documentarista Craig Gilbert decidiu registrar uma cultura ainda pouco estudada: a família americana, ainda mais num período culturalmente e socialmente conturbado. A escolhida foi a família californiana Loud, formada por pai, mãe e cinco filhos. Era o cinema-verdade, o primeiro reality show, uma história que Cinema Verité, produção da HBO, conta muito bem.

Os registros foram feitos em 1971 e duraram sete meses, mas a série em episódios só estreou na televisão em 1973, sob o título de An American Family. Foi um sucesso de audiência. Público e crítica massacraram a família Loud, que, na época, já se encontrava em frangalhos depois do divórcio do casal e se sentiu enganada e manipulada por Craig Gilbert. Nos bastidores, Gilbert estava brigado com o casal de cinegrafistas que se inseriu na rotina dos Loud e não concordou com certas decisões que ultrapassavam a ética documentarista. An American Family foi o auge e a ruína de Gilbert, ele se aposentou das câmeras e tentou, aos 85 anos de idade, impedir a exibição de Cinema Verité.

Mas o que a família Loud tinha de tão especial assim? No começo tudo era flores, acenos, amigos se aproximando, muita música e risadas, mas aos poucos a câmera de Alan e Susan Raymond foi se tornando invisível e as rachaduras da família perfeita começaram a aparecer. Pat, a mãe e o motor da família, se mostrava cada vez mais insegura e ressentida pelas suspeitas de infidelidade do marido, e consequentemente protagonizou pequenos barracos.  O filme deixa claro que Gilbert usou e abusou de Pat para arrancar conflitos na família (também deixa no ar que os dois se envolveram), posteriormente ele negou tudo, e também usou as afetações de Lance para chocar a conservadora audiência americana.

Curiosamente, Cinema Verité foi dirigido por uma dupla de documentaristas que tem se especializado em filmar ficções como estudos (ou o contrário), Shari Springer Berman e Robert Pulcini, de Anti Herói Americano e O Diário de uma Babá. Independente do que realmente aconteceu nos bastidores de An American Family (e talvez nunca saberemos, pois os Loud se recusam a falar, apesar de ter apoiado o filme), o elenco está impecável, principalmente Diane Lane, que faz a matriarca feminista que prega a libertação e ao mesmo tempo é tão domesticada e volúvel.

Cinema Verité já saiu em DVD e é uma ótima oportunidade para debater o nosso papel de espectadores (adoro a crítica de que nunca veremos estas produções como arte simplesmente porque adoramos julgar) e consumidores.

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