episódios da vida romântica

No momento em que os canais abertos e pagos brigam e se modelam pela audiência da chamada nova classe média, o canal Viva vai na contramão e reprisa Os Maias, melhor obra que a Globo já produziu, um luxo finíssimo, de uma sofisticação nunca mais vista na televisão. Infelizmente a minissérie foi um fracasso de audiência (quase mandei um e-mail de agradecimento para o Café Pilão, principal anunciante) e por vários motivos, e seria um fracasso ainda maior nos dias de hoje, mas todos justificados pelo texto do Luis Fernando Veríssimo:

“(…) Durante todo o tempo em que assisti ‘Os Maias’ na televisão pensei no termo musical ‘andante majestoso’. Não que o andamento da ação fosse invariável e pesado. Pelo contrário, a câmera extraordinariamente móvel do Luiz Fernando Carvalho ‘frequentou’, mais do que retratou, a frívola Lisboa da época e todas as atmosferas do romance. Mas no fundo havia aquela progressão majestosa, desde a primeira cena, para o desenlace, a câmera andante nos levando como um lento tema trágico que repassa uma sinfonia. Nunca uma câmera de TV foi tão cúmplice e envolvente, nunca a TV foi tão romântica. Tudo contribuiu para o clima exato do começo ao fim, a começar pela adaptação habilíssima que Maria Adelaide Amaral fez dos ‘episódios da vida romântica’ do Eça, e incluindo as interpretações, todas perfeitas. Mas a estrela do espetáculo é o olhar do diretor Luiz Fernando Carvalho, que com ‘Os Maias’ quase inaugura outra arte inédita”.

A Globo tinha voltado a investir pesado em minisséries e fez muito sucesso no ano anterior com A Muralha, também adaptada pela Maria Adelaide. Esperava-se os mesmos números com Os Maias, pois se o povo gosta de luxo, a minissérie tinha para dar e vender. Um figurino deslumbrante, cenários e locações impecáveis, fotografia de cinema e um elenco de peso – Fábio Assunção, Ana Paula Arósio (nunca estiveram tão lindos), Walmor Chagas, Selton Mello, Osmar Prado, Eliane Giardini, Eva Wilma e a narração incomparável de Raul Cortez. Além disso tudo, a trilha sonora tinha composições de John Neschling, André Sperling e músicas de Madredeus. Contudo, não foi um caso de forma versus conteúdo, porque Os Maias foi tão densa e rica que Carlos da Maia se tornou meu ideal de herói romântico.

“Maria Eduarda… Era a primeira vez que Carlos ouvia o nome dela. Maria Eduarda… Carlos Eduardo… Havia uma similitude nos seus nomes. Quem sabe se não pressagiava a concordância dos seus destinos? E Carlos sentiu, sem saber, uma doçura nova penetrar-lhe o coração”.

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2 comentários em “episódios da vida romântica”

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