“escrever é cortar palavras”

Eu aprendi a ler e escrever lendo legendas de filmes e com os quatro primeiros volumes da coleção Para Gostar de Ler. Eram crônicas de Carlos Drummond de Andrade, Fernando Sabino, Paulo Mendes Campos e Rubem Braga. Li e reli sabe Deus quantas vezes, e as minhas crônicas favoritas eram de Drummond. No início de um dos volumes havia “entrevistas” com autores e foi então que passei a imaginar Drummond como na foto acima. Um senhor delicado, quieto, observador e muito sensível. Um tipo de pessoa que a vida e o mundo amam.

Hoje, sabendo da existência de suas correspondências com seus leitores, percebo que ele foi um homem muito mais delicado que imaginava. Uma pessoa que usava parte do seu tempo para trocar ideias, ler confidências, dar palavras de incentivos e agradecer. Que escritor faz isso hoje? Quem faz isso hoje?

De qualquer forma, para comemorar os 109 de Drummond, eu posto meu poema favorito dele: Resíduo. > eu juro que espacei linhas, mas o wordpress não entendeu.

Resíduo

De tudo ficou um pouco
Do meu medo. Do teu asco.
Dos gritos gagos. Da rosa
ficou um pouco
Ficou um pouco de luz
captada no chapéu.
Nos olhos do rufião
de ternura ficou um pouco
(muito pouco).
Pouco ficou deste pó
de que teu branco sapato
se cobriu. Ficaram poucas
roupas, poucos véus rotos
pouco, pouco, muito pouco.
Mas de tudo fica um pouco.
Da ponte bombardeada,
de duas folhas de grama,
do maço- vazio – de cigarros, ficou um pouco.
Pois de tudo fica um pouco.
Fica um pouco de teu queixo
no queixo de tua filha.
De teu áspero silêncio
um pouco ficou, um pouco
nos muros zangados,
nas folhas, mudas, que sobem.
Ficou um pouco de tudo
no pires de porcelana,
dragão partido, flor branca,
ficou um poucode ruga na vossa testa,
retrato.
Se de tudo fica um pouco,
mas por que não ficaria
um pouco de mim? no trem
que leva ao norte, no barco,
nos anúncios de jornal,
um pouco de mim em Londres,
um pouco de mim algures?
na consoante?
no poço?
Um pouco fica oscilando
na embocadura dos rios
e os peixes não o evitam,
um pouco: não está nos livros.
De tudo fica um pouco.
Não muito: de uma torneira
pinga esta gota absurda,
meio sal e meio álcool,
salta esta perna de rã,
este vidro de relógio
partido em mil esperanças,
este pescoço de cisne,
este segredo infantil…
De tudo ficou um pouco:
de mim; de ti; de Abelardo.
Cabelo na minha manga,
de tudo ficou um pouco;
vento nas orelhas minhas,
simplório arroto, gemido
de víscera inconformada,
e minúsculos artefatos:
campânula, alvéolo, cápsula
de revólver… de aspirina.
De tudo ficou um pouco.
E de tudo fica um pouco.
Oh abre os vidros de loção
e abafa
o insuportável mau cheiro da memória.
Mas de tudo, terrível, fica um pouco,
e sob as ondas ritmadas
e sob as nuvens e os ventos
e sob as pontes e sob os túneis
e sob as labaredas e sob o sarcasmo
e sob a gosma e sob o vômito
e sob o soluço, o cárcere, o esquecido
e sob os espetáculos e sob a morte escarlate
e sob as bibliotecas, os asilos, as igrejas triunfantes
e sob tu mesmo e sob teus pés já duros
e sob os gonzos da família e da classe,
fica sempre um pouco de tudo.
Às vezes um botão.
Às vezes um rato.

vai ser imortal?

Ainda tenho trauma de Fúria de Titãs, e olha que eu nem vi o filme todo! Bom, qualquer filme que envolva deuses e semideuses gregos, homens saradérrimos e armaduras douradas me deixam com um pé atrás. Contando como um ponto positivo, Imortais é dirigido por Tarsem Singh, então pode ser interessante. De qualquer forma, só vamos descobrir se Imortais é bom mesmo no dia 23 de dezembro. Julguem pela capa!

por que eu estou atrasado em dexter

Podem me vaiar, jogar tomate ou qualquer coisa do gênero, mas na contramão da crítica, eu estou adorando American Horror Story. Tudo bem que o episódio piloto não é a melhor coisa do mundo, o segundo é muito melhor, e o quarto, a primeira parte do Halloween, é melhor ainda.

Assim como em The Walking Dead, eu não me simpatizo com nenhum integrante da família Harmon. Gosto do Tate, da empregada tarada que também é a Francis Conroy e, principalmente, de Adelaide e a mãe Constance. E é na casa vizinha que rolam as cenas mais interessantes da série, entre mãe e filha, o que comprova que American Horror Story é de Jessica Lange e Jamie Brewer.

No episódio de Halloween, o personagem de Zachary Quinto (Sylar não quis meu cérebro) finalmente dá o ar da graça e traz algo de bom para a casa assombrada dos Harmons, ou melhor, algum brilho. Os mistérios só aumentam, mas também se autoexplicam, ou fazem a gente deduzir certas coisas. Num misto de humor, tristeza e terror, Adelaide, a menina com Síndrome de Down, quer se fantasiar de pretty girl, para o horror da mãe. Depois de brigas e insinuações e uma fantasia de dar medo, um acidente me choca mais que ver o homem de vinil preto atrás da Violet. Mas esta pode sumir da série – alguém me explica como essa garota pode ser tão indiferente? Ela foi feita refém por três malucos, um garoto maníaco entra e sai da casa quando bem entende, o pai é problemático e a mãe é pior ainda. Para completar, a mãe sofre fortes dores na barriga e é levada para o hospital, enquanto ela fica lendo gibi e ouvindo música.

Outra razão para meu atraso com o serial killer é The Good Wife. Cada vez mais excelente. Alicia se sentindo mais usada do que nunca, um caso bacaninha, a aproximação de Celeste e a volta de um queridinho. Depois da dupla do barulho Eli e Kalinda: Alicia e Colin Sweeney (aquele que matou a esposa). Apesar de gostar muito de ver Kalinda trabalhando com Eli, sinto falta dela com Alicia. E este episódio Marthas and Catlins só confirma uma coisa: a filha de Alicia é uma retardada. Nota mil para Julianna Margulies, que faz valer todos os prêmios de melhor atriz que recebeu.

os estranhos números da tv paga

Um programa de televisão se sustenta no tripé faturamento-prestígio-audiência, mas também consegue se manter com apenas faturamento e prestígio. É o caso de Hebe, por exemplo. Hebe nunca foi um fenômeno de audiência, porém, é uma porta-voz da classe média e sempre teve esta audiência consolidada com este segmento. A tv paga é mais ou menos assim, o que surpreende é que mais da metade dos domicílios com tv paga está sintonizada em canais abertos.

A pesquisa foi feita durante o mês de agosto, de 7h à 0h, nas principais capitais praças brasileiras: São Paulo, Rio de Janeiro, Belo Horizonte, Curitiba, Campinas, Porto Alegre, Brasília e Florianópolis. De cada 100 televisores ligados, 37 estavam sintonizados na Globo. Em seguida, Record (10,8%), SBT (6,4%) e Bandeirantes (3,4%).

Como já se sabia, as crianças mandam na tv paga, mas não é o Cartoon Network quem está no top dos infantis, e sim o Discovery Kids (3,1%). O Cartoon vem logo em seguida, com 2,3%, mas no ranking dos 10, perde uma colocação para o Sportv (2,6%). No oitavo lugar está a Rede TV!, empatada com o Cartoon. O nono e o décimo canais mais vistos são outros infantis, o Disney Channel e o Nickelodeon, respectivamente com 1,8% e 1,5%.

A pesquisa incluiu 100 canais e 40 deles têm audiência abaixo de um ponto. Uma surpresa é que a católica e pobrezinha Rede Vida tem mais audiência que a Recordnews, 0,34% e 0,18%, respectivamente.

Fonte: Ricardo Feltrin (F5).

muvucão

No final deste mês de outubro, seremos 7 bilhões de habitantes no mundo. Gente para dar e vender. A cada segundo, nascem cinco pessoas, e morrem duas. Desde 2008, a população urbana é maior que a rural e estima-se que em 2050, 70% dos terráqueos viverão em grandes cidades. Apesar do número, há espaço para todo mundo, o que falta é equilíbrio. Por exemplo, quase 40% dos habitantes da Terra não têm saneamento básico. É preciso pensar em como acomodar tanta gente. Tudo isto é mostrado no vídeo abaixo, feito pela National Geographic. 7 bilhões de motivos para se pensar.

tudo morre

Minha relação com The Walking Dead é engraçada. Eu gosto muito dela, é realmente muito boa, mas não morro de amores. Talvez porque eu não tenho simpatia por nenhum dos personagens. Sei lá, vai me entender! Porém, eu gostei muito dos seis websódios da série. Estes episódios feitos exclusivamente para a internet não têm ligação direta com a série e também não explicam como as pessoas se tornaram zumbis, dá apenas um outro ângulo da epidemia.

Não é possível assistir pelo site da AMC – porque somos do Brasil – mas dá para ver pelo site da Fox, que exibe a série por aqui, e com legendas. O único inconveniente é a propaganda no início. Mas não façam como eu fiz, vejam na ordem: 1) A New Day. 2) Family Matters. 3) Domestic Violence.  4) Neighboardly Advice. 5) Step Mother. 4) Everything Dies.

10 anos depois

Dá para acreditar que já se passaram dez anos desde que vimos o Condado pela primeira vez nas telas?

Na foto, a reunião dos quatro hobbits. Dominic Monaghan (Merry) manteve a fama como o Charlie, em Lost. Atualmente, está numa série não muito conhecida chamada Goodnight Burbank e está para lançar dois filmes. Elijah Wood (Frodo), o mais famoso do quarteto, está na série Wilfred e em trocentos filmes que serão lançados até 2013, incluindo Happy Feet 2 e os dois filmes do Hobbit.  Sean Astin (Sam) faz participações em séries e em pequenos filmes. Já Billy Boyd (Pippin) também tem feito televisão e filmes de baixo orçamento.

a crise das salas

Não é mera coincidência que tantos filmes de Hollywood estão sendo filmados ou tendo a premiere no Rio – Velozes e Furiosos 5, Os Mercenários, Rio, Os Pinguins do Papai, The Samaritan, Crepúsculo – Amanhecer, O Grande Dragão Branco. O Brasil entrou para a lista de países importantes para o mercado cinematográfico internacional, mas as nossas salas não estão acompanhando o rítmo. O Segundo Caderno d’O Globo mostrou que apenas 14% das 2500 salas de cinema do Brasil estão adaptadas para o sistema digital, enquanto no resto do mundo, 48% das salas já são digitais. Nos Estados Unidos, o número atual é de 60%, mas estima-se que até o final de 2013, 90% das salas já estarão adaptadas. O número de salas digitais brasileiras é comparável com o da Africa, para se ter uma ideia. Mas o que isso quer dizer?

Bem, os estúdios americanos deram um prazo para cinemas americanos se adaptarem, que é até o final de 2013. E os estúdios estimam que a partir de 2015, a película (35mm) deixará de ser usada no mundo todo. O problema é que se o Brasil continuar no seu rítmo, ficará para trás. A película sai muito mais cara para as distribuidoras, pois é necessário fazer cópias da impressão e ainda há os custos de transporte, enquanto o digital é apenas um arquivo enviável pela internet direto para a sala de projeção. Algumas das reformas já feitas foram custeadas por distribuidoras, motivadas pelo lucro com o 3D, já que este formato precisa de uma projeção digital.

Entende-se que o maior interessado na modernização das salas são as distribuidoras, que teriam redução de custos e estçao dispostas a pagar parte do pato. No resto do mundo, há empresas que mediam os interesses de exibidores, estúdios e distribuidoras para financiar as reformas e há uma taxa paga por estúdios e distribuidoras para pagar a conversão das salas. No Brasil, o governo criou uma Medida Provisória que isenta de taxas a importação de equipamentos audiovisuais, mas só a partir de 2012. Atualmente, ao comprar um projetor, paga-se 65% de impostos + ICMS de cada estado – ou seja, é caro pra caramba. E há outro porém, a Medida precisa ser votada para se manter. As distribuidoras brasileiras  já pediram mais ajuda e o governo estuda abrir uma linha de crédito para este fim.

Espero que haja um final feliz para esta novela.