but i’m still in love with judas, baby

Num futuro não muito distante, as piadas não terão graça, serão escatológicas ou do tipo Joãozinho. Os livros serão cartilhas ou manuais de alguma coisa, todos descritivos e nada narrativos. Os filmes do Michael Bay vão concorrer ao Oscar, enquanto cineastas como Scorsese estarão em exílio na lua. Eu e mais alguns seremos mais incompreendidos que nunca, talvez, na pior das hipóteses, seremos julgados e crucificados em praça pública, tudo por conta das nossas ironias e sarcasmos. E sabe por quê? Porque o povo está perdendo a capacidade de interpretar, está entendendo tudo ao pé da letra. Num primeiro momento eu digo “ai que burro, não entendeu”, mas depois me dá um certo desespero, porque eles estão se multiplicando e já são muitos. Mas não podem voar. Menos mal.

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mundo cão

Hoje eu vi o trailer de Submarine, estreia de Richard Ayoade (The It Crowd) como diretor, e é o tipo de filme que eu adoro: comédia jovem, esperta, independente e com bons atores. Ex: Garota Fantástica (Whip it), Scott Pilgrim, Juventude em Revolta (Youth in Revolt), Caindo no Mundo (Cemetery Junction), O Agente da Estação etc. Na cola de Submarine, eu apresento um filme pouco visto pela maioria e que é excelente, também nestes moldes.

Ghost World, ou Mundo Cão, é baseado nos quadrinhos de mesmo nome de Daniel Clowes. Enid (Thora Birch) e Rebecca (Scarlett Johansson) são duas “excluídas” que se formam no colégio e começam a esperada vida adulta, o fim dos dias sem cheerleaders, nerds babões e garotos metidos. O plano das duas é trabalhar durante o verão para poderem pagar o aluguel e terem seu próprio apartamento, mas Enid acaba virando um empecilho, seja por sua reprovação em artes, o que a obriga a frequentar o summer school, ou o reatamento do pai com a antiga namorada. E o que muda totalmente a vida de Enid: Seymour (Steve Buscemi), um pobre coitado que cai num trote das duas amigas, mas que se mostra o homem mais interessante que Enid já conheceu.

Mundo Cão foi o primeiro filme baseado em HQ indicado ao Oscar de melhor roteiro adaptado. Além deste, Thora Birch e Steve Buscemi foram indicados a zilhões de premiações, incluindo o Globo de Ouro de atriz em comédia/musical e ator coadjuvante. No total, foram 24 prêmios e 29 indicações. O roteiro foi escrito pelo próprio Clowes e o diretor, Terry Zwigoff (Papai Noel Às Avessas). Além de ser excelente, é uma chance de ver Scarlett Johansson antes de virar um mulherão e Brad Renfro (O Cliente), morto em 2008 aos 25 anos.

meus leitores fofuxos

É verdade que quem escreve, escreve para si próprio, mas também é verdade que quando quem escreve passa a ter leitores, passa a escrever para estes também, ambos ganham a mesma importância. Ontem, eu ganhei uma leitora que anda fuçando e comentando posts de mais de um ano atrás, e com isso, eu li posts que eu nem lembrava mais ter escrito. E quer saber? Tenho um super orgulho do meu blog! É claro que ele está cheio de bobagens e que eu poderia ter escrito ou montado melhor certos posts, mas mesmo assim eu gosto muito dele. E você, querido leitor, é parte que eu mais gosto! Sem sombra de dúvida. Principalmente porque entraram aqui por conta própria! Aos que comentam, aos que só lêem e aos que caem aqui de paraquedas, muito obrigado pela parceria! Por favor, comentem, façam sugestões e critiquem.  Um beijo no coração de todos!

quem matou rosie larsen?

Depois de uma hora e meia vendo The Killing, tanto faz quem matou a colegial Rosie, porque os personagens são bem mais interessantes que a velha fórmula do “quem matou?”. A série é uma versão americana da série dinamarquesa Fobrydelsen, de 2007 e se passa na Seattle dos dias atuais. A detetive Sarah Linden está prestes a se mudar para a ensolarada califórnia, onde se casará pela segunda vez, porém, em seu último dia de trabalho, ela precisa investigar o sumiço da adolescente Rose.

O caso não começa como um sumiço, mas assim que este caminho é aberto, personagens aparentemente sem qualquer ligação com o caso começam a ser apresentados, aí começa o “foi ele, não, foi ela, não, foi o pai, não, sei lá “. Mas de repente, o foco são os personagens. Por que Sarah vai casar com um cara esquisito com quem ela parece não ter nada em comum? Como era a relação de Rose com a mãe? E o policial recém-chegado é realmente legal? O que o candidato a prefeito tem a ver com a história?

O andamento de The Killing é lento, cada episódio corresponde a um dia de investigação, logo, é um oposto de CSI, e é isso que é tão bom na série. Ver o sofrimento da família, os policiais vasculhando a mata, o carro sendo içado, Sarah seguindo seu instinto, a indiferença dos colegas de escola, tudo trágico e muito bonito. Um clima realmente Twin Peaks, mas sem as esquisitices de David Lynch. A série pode não agradar a um grande número de pessoas e parar o país para ver quem é o assassino, mas tenho certeza de que quem a acompanhar, não vai se arrepender.

fome de viver

Estou muito interessado em Michael Fassbender, sem nenhum motivo em especial, mas acho que ele é exatamente como seu personagem em Centurião: sensível, praticamente um poeta para as mulheres, e admirável para os homens. É como se ele fosse íntimo, o conhecesse há anos. Ele é a razão para eu querer ver X-Men Primeira Classe, e também a minha curiosidade para o prelúdio de Alien que Ridley Scott vai dirigir, Prometheus. Além de ser Carl Jung em A Dangerous Method, do David Cronenberg.

Estou tentando ver sua filmografia – até agora vi Bastardos Inglórios, Centurião, 300, Sem Saída e Hunger. Este último é seu melhor trabalho e, infelizmente, não lançado no Brasil. Hunger conta a história dos prisioneiros do IRA depois que o governo britânico tira o status de prisioneiros especiais. Como protesto, eles se recusam a vestir uniformes e vivem nús, apenas com um cobertor para se proteger do frio, e cobrem as paredes das celas com cocô. Michael Fassbender faz Bobby Sands, o prisioneiro que inicia uma greve de fome e consegue atenção do mundo.

O trabalho de Fassbender é perturbador, não só pelo esforço físico de perder 14 kg, mas de fazer um personagem crível e não cair em heroísmo, já que a história é verídica. O diretor Steve Mcqueen (adoro este nome) faz um trabalho visceral, em alguns momentos dá vontade de aplaudir, seja pelo seu trabalho com os atores ou pelo controle absoluto sobre o filme. Co-escrito por ele, não há pressa em mostras os porquês, há benevolência e compreensão com cada personagem. Hunger foi seu primeiro filme como diretor e só pela ousadia de fazer cena contínua de mais de 15 minutos, eu já comprei o ingresso para seu segundo filme, Shame, também com Fassbender.

guerra de tronos na tv

Olha como a televisão americana está animadinha: Kate Winslet sendo dirigida por Todd Haynes (Longe do Paraíso, Não Estou Lá) na minissérie Mildred Pierce. No lugar de The Tudors, Jeremy Iron é o papa Alexandre VI na série The Borgias, de Neil Jordan (Fim de Caso, Café da Manhã em Plutão). Na AMC (eu disse AMC, o canal que brinda o mundo com Mad Men, Breaking Bad etc), The Killing pode se tornar um novo Twin Peaks, enquanto que na ainda duvidosa Starz, a lenda do Rei Arthur é contada em Camelot, com a estonteante Eva Green como Morgana. Voltando para a HBO, ela põe os pés num gênero, ou melhor, em três gêneros, o épico de Roma, o drama macho de Deadwood, e a fantasia de Carnivàle, com Game of Thrones, a única produção que vi até agora nesta temporada golden.

Olhando rapidamente, parece O Senhor dos Anéis, Sean Bean (o Boromir da trilogia) encabeça o elenco majoritariamente britânico, além da divisão da ação em diferentes núcleos que em algum momento vão se chocar. Mas Game of Thrones é mais uma distorção fantasiosa dos reinos europeus do século 13 e 14 disputando territórios, com direito a ovo de dragão e lobos gigantes, que com a saga de Tolkien e seus elfos, anões (Game também tem seu anão) e hobitts.

A série é baseada na coleção As Crônicas de Gelo e Fogo (ed. Leya), escrita pelo ex-roteirista George R.R. Martin. A ideia é que cada temporada correlacione a um volume da coleção. Mas Game of Thrones é boa? Pelo primeiro episódio, sim, é empolgante! Os 60 minutos passaram voando e estou louco para ver o segundo episódio. Tecnicamente impecável, ótimo texto e elenco de primeira. O que seria da minha vida sem HBO?

menina malvada

Todos os anos dezenas de comédias adolescentes são lançadas, grande parte não presta, uma ou outra são muito boas, mas às vezes, pouco vistas justamente por pertenceram a um gênero não muito atraente. A Mentira (Easy A) é uma delas, lançada aqui diretamente em DVD.

Olive conta uma mentirinha para sua amiga Rhiannon como desculpa para não ir a um acampamento com ela e seus pais esquisitos, essa mentira vai crescendo, crescendo até atingir proporções drásticas – se tá no inferno, abraça o capeta. Olive (Emma Stone) vira a promíscua da escola, a slut, ou como ela prefere, Hester, de A Letra Escarlate. É claro que a popularidade alimenta sua vaidade, mas aos poucos ela percebe que ser deixada de lado não é tão legal como parece nos filmes.

A Mentira não segue o esqueminha “menina comum fica popular, deixa os amigos de lado e depois aprende com seus erros”, pelo menos não como nos outros filmes do gênero. Digamos que é mais próximo de Galera do Mal (Saved!) e Garota Fantástica que qualquer outro filme que Amanda Bynes tenha estrelado. É quase uma homenagem aos filmes de John Hughes (Gatinhas e Gatões, Curtindo a Vida Adoidado, O Clube dos Cinco), com uma protagonista esperta e seu ponto de vista.

Emma Stone é uma atriz em ascensão que tem se aventurado em comédias espertas como Zumbilândia, as animações do Frango Robô e será Gwen Stacy no novo Homem-Aranha. Completando o elenco, a maravilhosa Patricia Clarkson faz a mãe de Olive e Stanley Tucci é o pai. Lisa Kudrow faz uma participação como a conselheira escolar. Filminho esperto, do mesmo sabor daquelas sessões da tarde com John Hughes.

distribuidora burra

Imagino que adquirir um filme para comercializar não seja barato, por isso me pergunto por que as distribuidoras parecem não ter nenhum cuidado com seus acervos? Um exemplo de que elas não conhecem o que compram está numa das produções mais elogiadas de 2009, a trilogia Red Riding do Channel 4. Os três filmes feitos para a televisão são adaptações dos quatro livros Red Riding Quartet, de David Peace e  passam em 3 anos distintos: 1974, 1980 e 1983. Três filmes que se completam! E o que a Playarte fez? Simplesmente desmantelou a trilogia como se fossem filmes independentes: Em Busca de um Assassino, Investigação de Risco, e Crimes e Pecados – lançados diretamente em DVD. O espectador desavisado pega um dos filmes, sem começo ou final, ou as duas coisas. Resultado: diz que o filme é ruim!

na croisette

O Festival de Cannes começa dia 11 de maio e parece que será diferente do ano passado, cheio de buracos e ranço de clubinho croisette – quando todas as cartas do baralho eram iguais e ganhou a esquisitisse do Tio Boonmee. Este ano, uma mistura internacional bem interessante repleto de filmes muito aguardados. Pelo menos por mim.

Sleeping Beauty. O conto de fadas da Bela Adormecida para maiores. Estreia da australiana Julia Leigh e com Emily Browning (Sucker Punch) no papel de uma jovem que é dopada toda noite para que homens façam o que bem entenderem com ela. O trailer feito para o festival está abaixo.

A Árvore da Vida. A visão de Terrence Malick (O Novo Mundo, Além da Linha Vermelha) é sempre curiosa e contemplativa. O filme vai desde o Big Bang até o futuro, mas concentra-se nos anos 1950 e acompanha Jack. Quando um dos seus irmãos morre, a família entra em desespero. Anos mais tarde, as consequências desta tragédia ainda atingem Jack (Sean Penn). Estreia no Brasil em 3 de junho. O belíssimo trailer você vê aqui.

La Piel que Habito. Pedro Almodóvar renovando parceria com Antonio Banderas e em um filme de terror. Banderas faz um cirurgião plástico que quer se vingar do homem que estuprou sua filha. Pesado, não? Nas palavras de Almodóvar: “É o filme mais chocante que já escrevi. O personagem de Banderas é brutal”.


We Need to Talk About Kevin
. Adaptação do maravilhoso Precisamos Falar Sobre Kevin, de Lionel Shriver. No livro, a história é contada através de cartas da mãe de Kevin, que matou sete colegas de escola, uma professora e uma servente, para o pai ausente. É uma psicanálise do que teria feito o filho cometer a chacina aos 16 anos, o medo de ser mãe… Tilda Swinton faz a mãe e John C. Reilly é o pai. A direção é de Lynne Ramsay.

This Must Be the Place. Falando em Sean Penn, aqui ele está todo roqueiro glam. Dirigido por Paolo Sorrentino (O Crocodilo, Il Divo), This Must… é sobre um roqueiro de meia idade aposentado que procura o nazista que matou seu pai.

Drive. Eu tento ver os filmes do Nicolas Winding Refn e não consigo, simplesmente porque não os encontro. Queria muito ver Bronson e Guerreiro Silencioso. Driver tem um dos meus atores favoritos, Ryan Gosling, só por isso já quero ver. Na história, ele é um  dublê que faz bico como motorista de fuga para assaltantes. A reviravolta acontece quando ele descobre que está marcado para morrer. No elenco, ainda estão a bonitinha Carey Mulligan, a sinuosa Christina Hendrix e o ótimo Bryan Cranston.

Ichimei – Seppukku (Hara-kiri – Death of a Samurai). O diretor Takashi Miike faz mais um remake de samurais, desta vez de Harakiri, de 1962. O anterior foi 13 Assassins.

a personagem mais linda do mundo

Rio não é da Pixar, o que significa que o roteiro não é uma maravilha e nem me arrancou muitas risadas – não que só as animações da Pixar consigam este feito, Como Treinar Seu Dragão é um exemplo. Maravilha mesmo é como o Rio é retratado no filme. Em entrevista, Anne Hathaway disse que achava que Carlos Saldanha tinha feito licenças poéticas ao criar o Rio da animação, mas quando chegou à cidade, ela viu que o Rio era tão fabuloso quanto o Rio do filme. Pode até ser que ela disse isso como agrado, mas acho que ela foi sincera. Eu, como morador do Rio e conhecedor dos inúmeros problemas da cidade, muitas vezes me pego suspirando e totalmente maravilhado com as vistas que tenho.

A cidade é a grande protagonista do filme. É uma visão estrangeira com alguns estereótipos, mas ao mesmo tempo, muito local. Tem referências à Carmem Miranda e às animações de aproximação cultural da Disney, mas também tem ipês roxos na cenografia, uma prova de que Saldanha pensou com carinho em todos os aspectos geográficos e culturais. Até a entrada do zoológico é idêntica! Deslumbrante!

É importante dizer que Rio é campeão de bilheteria nos países onde estreou, inclusive aqui. Nos Estados Unidos, onde estreou na sexta-feira passada, arrecadou 40 milhões de dólares no fim de semana, deixando Pânico 4 em segundo lugar. Na minha opinião, é a melhor propaganda turística que o Rio já teve. E mais importante que isso, é que Carlos Saldanha e Rodrigo Santoro não são os únicos brasileiros no filme. O que tem de animadores brasileiros trabalhando na Dreamworks, Pixar, Disney, Blue Sky (Fox) etc, não está no gibi.

Em poucas palavras, Rio é, para nós brasileiros e/ou cariocas, uma carta de amor. Um bilhetinho carinhoso deixado na cabeceira para ser lido ao acordar. Para o mundo, é um diálogo cinematográfico, uma posição no mapa, mesmo sendo made in USA. E só para lembrar, a produção começou bem antes de o Rio ser escolhido para sediar as Olimpíadas de 2016.