Buenos Aires para iniciantes

Ok, Buenos Aires já é destino manjado, mas isso não tira em nada o seu encanto. A cidade é linda, os portenhos são educados e simpáticos, os preços ainda são convidativos e fica pertinho do Brasil. Precisa de mais alguma coisa?

Viajei com minha irmã no feriado de finados (nov. 2009), cinco dias batendo perna por todos os cantos, e ainda deixamos de ir a alguns lugares. Essa foi minha segunda visita à BsAs, mas dá para classificá-la como primeira, pois antes, a capital foi apenas uma parada para a Patagônia.

Depois de definida a data da viagem, a questão era onde se hospedar. Fizemos reserva num hotel boutique em Palermo Hollywood, mas cancelamos e nos mudamos para o Retiro, o que foi uma decisão inteligente – Palermo é um bairro gigante e é dividido em Viejo, Soho, Hollywood e Queens. De noite é bacana, mas é meio morto durante o dia. Se você não sabe onde ficar, sugiro o Retiro (na região da praça San Martin) ou a Recoleta. Já foi se o tempo em que o Centro era uma boa opção.

Nossa escolha foi o Dazzler Flats Quartier Basabilvaso. Como já diz o nome, fica na rua Basabilvaso e é um flat. O prédio é novo, os quartos são amplos, arejados, sem decoração cafona e com ótimo preço – US$ 60,00 (diária), através do hotels.com .

Prédio
Quarto

O Dazzler Basabilvaso fica a duas quadras da praça San Martin, ou seja, metrô pertinho e uma ótima localização para ir a qualquer lugar, seja de ônibus ou táxi. Nas redondezas tem um supermercado, farmácias e cafés.

Chegamos num sábado de chuva, e foi assim nos dois dias seguintes. Pegamos um táxi ($96,00 pesos. Sei que tem gente que consegue por menos. A volta pode sair por $70,00, mas deve-se solicitar com 24 horas de antecedência) e fomos direto ao hotel.

Uma dica: A cotação do Global Exchange é péssima, mas também tem o Banco de La Nación dentro do aeroporto. Na rua Florida, a cotação era $3,80 por US$1,00. Algumas lojas faziam por $4,00 (out. 2009). Se você vai fazer compras (haha), dê uma olhada nos preços do Free Shop do Brasil e de Buenos Aires. Em se tratando de perfumes, achei os preços do free shop de Buenos Aires melhores, mas a diferença não era tão grande!

Caminhamos em direção à Florida dividindo o meu guarda-chuva e parando toda hora para as minhas exclamações: “Olha que prédio lindo!”, “Olha esse portão!”, “Eu não sei se pra cá ou pra lá!” – caipira de dobrar o R.

Praça San Martin - Palácio

Paramos num locutório para avisar que estávamos vivos e minha irmã poder cuidar da fazenda dela no Facebook. Tudo rápido e barato. Na lojinha ao lado, ela comprou um paragua só para ela. Caminhamos debaixo de chuva, com vendedores nos convidando para entrar na loja, até nos enfurnarmos nas Galerias Pacífico. Ficamos meio zonzos com a quantidade de gente naquele lugar, 70 % de brasileiros. Comemos uma comida italiana sem comentários. Dias depois, nos surpreendemos com um restaurante no segundo andar chamado Dodo Club.

As lojas da Galerias Pacifico estão em outros shoppings. Se seu tempo é curto, vá apenas em um shopping, pois as vitrines e preços são os mesmos. Fomos na rua Aguirre (Palermo), a ruas dos outlets. Não encontrei nada interessante, talvez porque era uma terça-feira e tudo havia acabado no fim de semana. Dizem que o Unicenter também não é mais o mesmo, que os preços são iguais aos da Florida.

À noite fomos jantar em Puerto Madero. Se você nunca leu nada sobre Buenos Aires, P.M. é uma antigo porto que foi revitalizado e hoje abriga restaurantes, além de ser um dos cartões postais da cidade. É bonito de dia e de noite, mas naquela noite de sábado, a chuva diminuiu um pouco o encanto. Depois de muito andar, entramos no Happening – sim, não é um bom nome, principalmente se o cardápio é portenho e o ambiente é mais formal. Mas não precisa chamar o Gordon Ramsey, a comida é boa e o serviço também – talvez um pouco caro. Para ver a reputação dos restaurantes de BsAs, veja o Guia Óleo e o blog dos Destemperados.

Happening

Imagine o Majórica (RJ) com uma decoração mais moderna e elegante. Eu pedi filé de contra-filé com batatas e minha irmã pediu salmão com vegetais refogados. De sobremesa, decidi experimentar o tiramissú com mascarpone de verdade. Achei um pouco úmido demais. A conta deu $158,00.

Os portenhos têm o hábito de jantar mais tarde, começam a partir das 21:00h. Alguns restaurantes abrem nesse horário, se for badaladinho, faça reserva e confirme depois!

Dia 2

No dia seguinte, tomamos café num café perto cujo nome esqueci, bem na praça. Pagamos caro, mas batemos papo (ou só ouvimos) com uma senhora polonesa/argentina. Ela contou a vida dela e disse que éramos pessoas boas. Eu acreditei piamente que somos pessoas boas, pois ela acertou minha idade (ninguém acerta minha idade!). Voltamos para “casa” e perguntamos ao Alberto, o porteiro, qual a melhor maneira de ir à Boca. Ele mandou a gente pegar um ônibus. E foi o que fizemos.

Ônibus 152 na Av. Del Libertador. Os ônibus de lá aceitam moedas e a passagem custa $1,20 (não sei se calculam pela distância, pois numa outra viagem pagamos $1,25. Enfim, uma merreca). Mais que nunca, éramos os turistas naquele ônibus. Como o chão estava molhado, quase dei um twist carpado para trás. O trajeto não é muito bonito, bate até uma melancolia. Quando chegamos na Boca, foi desolador. O motorista praticamente nos expulsou do ônibus e ele entrou na garagem. Pelo ponto colorido mais adiante, percebemos que ali era o Caminito. Chovia horrores! “Vamos pela margem do rio que é mais bonito”. Bonito uma ova, é a junção do Tietê e a Baía de Guanabara.

ônibus em Buenos Aires

Encontramos um Caminito deprê e vazio. Já havia ido lá e não tinha gostado. Não vejo vida, nem bohemia, nem charme. Acho bem pega-turista. Tiramos algumas fotos só para registrar, compramos um havana para trocar dinheiro e pegar o ônibus (129, acho). No caminho para o ponto, demos de cara com o sósia do Maradona. Se tirasse foto, ele cobraria. Mas acho triste ser sósia do Maradona.

Pintor sin manos

O planejado era ir até San Telmo e dar um pulo na tradicional feira aos domingos, mas a forte chuva não permitiu. Descemos perto da Praça de Maio – foi um ponto antes, erro de cálculo. Aquela redondeza é deserta, dá um medinho, mas logo estávamos em frente a Casa Rosada. Aos domingos, a entrada é permitida e a visita guiada leva cerca de 25 minutos (se eu escutei bem). Como não havia possibilidade de esbarrar em Cristina, não tive interesse. Minha irmã ficou mais feliz em tirar foto com o guarda – fiquei tão sem graça que o guarda quase riu. “Se vai tirar, tira com o mais bonito!”.

Casa Rosada

A chuva havia parado e um sol bem tímido dava as caras. Mormaço. Quando fui pela primeira vez, a Casa Rosada estava em reforma e a praça estava cercada por grades e policiais. Dessa vez, achei a praça menor. Entramos na Catedral e fizemos tudo o que os turistas fazem. Nos perdemos de novo, mas encontramos nosso caminho: pegar a rua Peru e sair na Florida. O centro é deserto nos fins de semana, mas nesses trechos turísticos, não há perigo. Paramos para um lanche no Starbucks. Lanche = lanche + banheiro.

Na parte da tarde, nos mandamos para Recoleta. Fomos de táxi, mais ou menos $10,00. Fomos ao Museu de Belas Artes – destaque para Polock (não entendo, mas me fascina). De lá, andamos mais um pouco e vimos a Flor Metálica. Ela é linda e gigante, mas não chegamos muito perto (pura preguiça). Andamos um pouquinho e entramos no Buenos Aires Design para almoçar. Não quis Hard Rock Café, mas fomos no Irish Pub – Downtown Matias.

Downtown Matias

Pedi carré ao molho de ameixas, minha irmã pediu scalope de filé mignon. Comidinha boa, a conta deu $100,00 com gorjeta. Voltaria lá? Experimentaria outro lugar.

Andamos e andamos. Cemitério que não entramos, feirinha bacaninha na praça e Centro Cultural da Recoleta com o museu interativo Prohibido No Tocar (dica da Carla). A entrada custa $15,00 e é uma boa diversão para crianças e adultos. Já estava cambaleando, então não toquei em tudo. Pegamos um táxi e voltamos para casa.

Estávamos sem vontade de sair para jantar. Quando voltamos de Puerto Madero na noite anterior, havia visto um restaurante na esquina da Esmeralda com a Juncal – Bodega Nogaro. Fomos para lá. Pizza de palmito e framboesas com creme de sobremesa. Sério, a melhor sobremesa. Voltamos lá apenas para comer as framboesas.

Dia 3

Segunda-feira, nosso primeiro dia útil na cidade. Como não estávamos num hotel convencional, o check in só foi oficializado nessa manhã. É incrível como a cidade ganha um outro ritmo, pessoas indo trabalhar, estudar. Gente atrasada. Sentimos isso ao sair para tomar café. Finalmente conhecemos os moradores daqueles belíssimos prédios vizinhos ao hotel. Decidimos não gastar muito dinheiro em um café da manhã e fomos ao McDonald’s. Sim, tomamos café na lanchonete do palhaço. Nesse dia queríamos gastar dinheirinho no Unicenter, que oferecia serviço de transfer com saída em frente o Marriot. Descobrimos que este serviço não existe mais e que os preços de lá eram iguais aos de cá, na Florida.

Chovia e não sabíamos o que fazer. Nos abrigamos novamente nas Galerias Pacífico, onde descobrimos o Dodo Club.

Dodo Club

Meu almoço foi milanesas de filé mignon com purê de batatas, nuvem de parmesão e saladinha de rúcula. Minha irmã escolheu nhoque com molho de cogumelos. Dois pedidos afinadíssimos, fechados com um cake de frutas. Tudo por $90,00.

Nhoque com cogumelo
Milanesas de filé com salada e purê
cake de frutas - sabe aquela casquinha da crème brûlée?

Já que o Unicenter tinha ido para o beleléu, fomos aos outlets na rua Aguirre. Pegamos o ônibus (acho que foi o 106). Não valeu a pena. Pode ser que nos fins de semana seja imperdível, não sei dizer. De lá fomos ao Alto Palermo, que é igual aos outros shoppings. Depois partimos para o BsAs Design. A pé, pegamos a Alvear e nos deslumbramos um pouquinho. Nos preparativos para a viagem, programamos um chá no Alvear, mas acabamos desistindo – não tenho o preço atual, mas não é nada irreal.

Av. Alvear

No caminho de volta, entramos num lugar que achávamos ser um café, mas era uma confeitaria/banqueteria – Dos Escudos. Compramos alguns sanduíches que, inicialmente, seriam nosso jantar. Comemos vendo O Rio Selvagem.

Saímos para dar umas voltas. Não entre nas lojas quase às oito, pois os vendedores estão loucos para fechar a loja. Não te expulsam, mas fica a impressão. As lojas de rua fecham às oito, as de shopping, às nove. Paramos novamente no Nogaro e aprendemos que patata é a nossa batata. Batata para eles, é batata doce. Enfim, pedimos algumas besteirinhas só para comer as framboesas.

Dia 4

Dia de sol. Dia de fazer a peregrinação que a chuva não permitiu. Tomamos um horroroso café que encontrei e nos mandamos para Palermo via 152 (agora na San Martin). Descemos em frete ao zôo. Não tínhamos planejado entrar, mas entramos. Ficamos umas duas horas e aprendemos como é cachorro quente em espanhol (agora esqueci). Vimos os felinos, a llamas e seus parentes, constatamos que os leões “argentinos” são mais animados que os de cá e que elefantes fedem em qualquer lugar.

Andamos feito Chitãozinho e Xororó até o Parque das Rosas. É belíssimo! Todas as rosas floridas e lagos para book de 15 anos e casamento.

Jardim das Rosas

Andamos mais e mais até o Jardim Japonês, que não estava tão exuberante assim, mas é lindo também. Acho que se tivéssemos ido algumas semanas antes, encontraríamos uma Buenos Aires pontuada pelos jacarandás floridos. De lá nos mandamos para a região de Lãs Canitas. Andamos até encontrar o tão aguardado Persico. Se no Fredo provei o tradicional dulce de leche,  ali eu peguei café com torta de limão. Felicidade gelada! Não lembro o que minha irmã escolheu, estava muito ocupado. Pegamos um táxi e fomos a um lugar imperdível.

A livraria El Ateneo Grand Splendid na Santa Fé é soberba. Um teatro transformado em livraria. Veja as fotos.

El Ateneo
Ateneo

Tínhamos que voltar, pois deveríamos estar prontos às 20:30 para o show de tango. Pegamos o metrô para descer na Florida (a San Martin seria mais perto, mas teríamos que fazer conexão). Ficamos meio perdidos, mas deu certo. Ai, o metrô! Escuro, pequeno, quente e sujo. Acho que tentaram abrir minha mochila.

Conversamos com uma mulher em Palermo. Ela perguntou por que estávamos em BsAs se o Brasil é um país tão bonito. Sério, eles acham isso muito engraçado. Ela falou sobre a violência na cidade, aí entra o aviso. Nós visitamos apenas as áreas bonitas da cidade, a periferia é meio Complexo do Alemão. De qualquer forma, quem vive em cidades como Rio e São Paulo, se sente mais seguro em Buenos Aires. Tome os mesmos cuidados, há batedores de carteira, roubam sem você perceber. Também tem muito dinheiro falso circulando. Não pague táxi com notas altas nem troque dinheiro em qualquer lugar.

Andamos a Florida inteira, acho que os vendedores já até nos conheciam. Minha irmã ficou pelo caminho para fazer as unhas. Às oito e pouquinho, estávamos bonitinhos no lobby do prédio. Um casal brasileiro se juntou. O microônibus chegou e entramos primeiro. Perguntamos se era da Esquina Carlos Gardel, o motorista disse que sim. O brasileiro entrou no ônibus sozinho e o motorista perguntou: “Carlos Gardel?’. “Não. Eduardo”. O ônibus caiu em gargalhada. O Eduardo não entendeu e foi chamar a mulher.

O Esquina Carlos Gardel ficam e Abasto, bem em frente ao shopping. Há a opção de assistir apenas o show, ou fazer o combo jantar e show (cena show). O cena show custa quase US$ 100,00 – inclui transfer ida/volta, jantar c/ bebidas e show. Há várias opções de shows de tango, só não recomendam o Sr. Tango. Parece que é bem cafona, com cavalos no palco e balanço Moulin Rouge. O Esquina é muito bom, é show, mas nada Broadway. A orquestra é fantástica.

Dia 5

Nosso último dia e não havíamos comido empanadas. Andamos um pouco e entramos num café. Desejo de empanadas cumprido. Voltamos ao quarto para arrumar as malas e fazer o check out, já que o late check-out não era possível. Deixamos as malas na portaria.

Pegamos o ônibus na Libertador para Palermo. O Malba – Museo de Arte Latino Americana – fecha às terças, por isso não fomos no dia anterior, e era um dos lugares que eu mais queria ir. Chegando lá, a surpresa: Andy Warhol, Mr. America. Além de Frida, Warhol. Super contente!

Táxi para almoço rápido em Puerto Madero, que só havíamos conhecido de noite e com chuva. Almoçamos num lugar que nos recomendaram, mas nós não recomendamos. O Il Gatto é mais fast food que qualquer outra coisa. Comida sem gosto, serviço lerdo e ainda erraram na conta. Rápida caminhada e táxi para Basabilvaso.

No caminho para o aeroporto, pegamos o primeiro engarrafamento. Levamos cerca de 40 minutos. Chegamos no Ezeiza, empacotamos a mala e ao fazer check-in, descobrimos que o voo havia sido adiantado em uma hora por conta do horário de verão. Bateu um desespero, o free shop foi “pegue o que achar e corra para o caixa”.

De volta ao Rio, o calor maldito que ninguém sente saudade. E começam as reclamações: “Que calor!”, “Essa esteira não anda!”, “cadê minha mala!”, “não quero trabalhar amanhã”.

Dicas:

– Tenha um bom mapa. Nosso guia foi o da Folha de São Paulo 2007/2008.

– Veja a previsão do tempo antes de fazer a mala.

– Leve um bom par de tênis ou um calçado confortável.

– Anote os lugares que quer conhecer e os horários de funcionamento.

– Embale as malas na ida e na volta. Muitos reclamam de malas arrombadas.

– Converse com os argentinos.

– Entre em algum supermercado.

– A frase “hotel é só para dormir” é verdadeira, mas hotel ruim é noite mal dormida.

– Crianças precisam de passaporte para poder entrar na Argentina, RG não vale.

– Pelo amor de Deus, não fale que sabe portunhol.

– Buenos Aires não é Europa.

Update: Pelas estatísticas do blog, este é um dos posts mais lidos. Caso tenha alguma dúvida ou queira mais informações sobre BsAs, deixe um comentário que eu respondo. De graça!